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Pellegrini enfrenta herdeiras e joga na internet suas memórias com Leminski

Por Jorge Eduardo Mosquera – Foto: Livros e Pessoas | Ribalta
18:02 – 16/10/2013

Pellegrini enfrenta herdeiras e joga na internet suas memórias com Leminski

A Gralha publica um capítulo do livro “Passeando por Paulo Leminski”, que narra os encontros de Pé Vermelho e Polaco

No dia 24 de agosto de 2014 o poeta curitibano Paulo Leminski completa 70 anos de nascimento. Ele morreu em junho de 1989, aos 45 anos de idade, em decorrência do alcoolismo. Estava separado da poeta Alice Ruiz, com quem tem as filhas Áurea e Estrela, e namorava a cineasta curitibana Berenice Mendes.

Pois a menos de um ano da previsível comemoração em honra ao setuagenário autor de “Catatau”, livros de poesia, traduções e biografias, ele tira os pés da cova e se transforma em núcleo da celeuma envolvendo escritores – principalmente biógrafos -, artistas famosos e herdeiros de mortos ilustres.

Já se conhece de cor o veto do Roberto Carlos a uma biografia não autorizada escrita por Paulo César de Araújo, tudo por causa da perna mecânica do rei da Jovem Guarda (chamada por ele de Margarida, revelaram Ruy Castro e Fernando Pessoa Ferreira, na falecida revista Status).

Djavan não quer que um eventual biógrafo explique o que é “açaí, guardiã, zum de besouro um imã, branca é a tez da manhã”. Cateano e Francisco Bosco (filho de João Bosco) falam em respeito à esfera privada. Chico se defende. Os herdeiros de Noel Rosa querem arrancar uma grana de João Máximo e Carlos Didier. E por aí vai.

E por aí as herdeiras de Paulo Leminski – a ex, Alice Ruiz, e as filhas Áurea e Estrela – vetaram a 4.ª edição da primeira biografia do poeta, “O bandido que sabia latim”, porque o autor, Toninho Vaz, de quem ele foi amigo até a morte, acrescentou algumas linhas sobre o suicídio de Pedro Leminski, o irmão menos famoso.

E vetaram um pequeno livro (161 páginas) de memórias de Domingos Pellegrini em que Leminski é figura central, contracenando o tempo todo com o autor. Pellegrini é escritor premiado, contista de primeiro time e romancista de tiro longo, e, o principal, o livro é dele, são suas as memórias. Mas as Leminski não querem saber: abordagem alcoólica na biografia de um notório bebedor, nã-nã-ni-na.

Domingos Pellegrini não topou ser editado pelas herdeiras, recusou o papel de escritor chapa-branca e, num lance magistral, liberou o livro pela internet, enviando-o por e-mail a 1,8 mil endereços, inicialmente. Quem vai chamá-lo de oportunista em busca de uns trocados?

O editor da Gralha recebeu o seu livro por intermédio do jornalista e escritor Dante Mendonça, amigo de Leminski e de Pellegrini e um dos que hospedaram o primeiro quando ele não tinha onde cair morto e Alice Ruiz começava a surgir como grande autora de hai-kais e letrista (ótima) de MPB.

A Gralha publica aqui o quarto capítulo de “Passeando por Paulo Leminski”, mais que um livro de (boas) memórias de dois dos grandes escritores paranaenses e brasileiros, uma profunda declaração de amizade e admiração. Quem quiser o livro inteiro, escreva pararedação@agralha.com.br

Boa leitura.

Tim-tim, Leminski e Pellegrini.

Viva os irmãos Pelleminski.

O ANFITRUÃO

Na primeira vez que Pé Vermelho vê o bigodudo, ele agita um cartaz numa cerimônia do saudoso Concurso de Contos do Paraná nos anos 1970. O cartaz só tinha três palavras:

O CONTO

MORREU!

            Anos depois, ele elogiará um conto de Pé Vermelho, que lhe diz ué, mas você não pregava que o conto morreu?

– Naquele tempo, mas renasceu. Até eu ando fazendo contos!

Essa naturalidade em cultivar a contradição, tão rejeitada pelos intelectuais amantes da coerência, será o caminho para Leminski moldar sua identidade artística.  O Catatau é continuação justamente de um conto seu inscrito no concurso do Paraná, e que ele estende longamente, como palavrósico delírio do protagonista Renato Cartesius depois de fumar maconha à beiramar.

Leminski já se desentendeu publicamente com Pé Vermelho, através de polêmica série de artigos no jornal O Estado do Paraná, em 1974, em seguida ao lançamento da coletânea Quatro Poetas. Hamilton Faria, Raimundo Caruso, Reinoldo Atem e Pé Vermelho fundarão uma Cooperativa de Escritores, misto de editora e entidade de resistência à ditadura, como outras na época, inspiradas na Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre. A cooperativa chega a associar vinte poetas de vários Estados e publica mais alguns livros, cada  um custeado pela renda do anterior, mas o tom socio-político de muitos desses poemas incomoda Leminski, já defensor da poesia como inutensílio.

A polêmica, através de artigos de página inteira, estende-se por semanas, divertidamente acompanhada por quantos acham que o polaco metido a gênio deve mesmo levar umas guascas, outros achando que  os quatro poetas merecem levar umas guascas já por serem quatro contra um.

Depois, Leminski integrará a comissão julgadora do Concurso Nacional de Poesia, em 1976, promovido pela prefeitura de Florianópolis, e Pé Vermelho será um dos selecionados para a antologia resultante do concurso. Na 1ª Semana Nacional de Poesia, num gelado julho, Leminski mostra que guardou quente rancor pronto a ser lançado. É admirador dos concretistas Augusto/Haroldo de Campos e Décio Pignatari, de quem sempre fala entusiasmado, enquanto para os quatro poetas a poesia concretista tem muito mais teoria que poesia, ilha de arte humanamente vazia.

Num auditório com coordenação de Lindolf Bell, Décio  Pignatari fala, enquanto Leminski, sentado ao lado de  Alice, dorme abraçado com uma garrafa de conhaque, que mamou “por causa do frio”. Quando acorda, Pé Vermelho está comentando a palestra de Décio, elogiando, mas Leminski presume que só pode estar refutando e criticando, e levanta de pulo e dedo em riste:

– A poesia concretista é arte refinada de vanguarda, vocês são a retaguarda aguada e requentada que não leva a nada! A revolução na arte se dá antes de tudo pela forma, como mostrou Maiakovski, e não só pelo chamado conteúdo, que pode ser até reacionário se fica no quadradismo das estrofes e da métrica  fazendo quadras como caixões funerários da poesia!

Enquanto isso, Alice lhe puxa a ponta da camisa, sussurrando e enfim falando tão alto que todos ouvem:

– Paulo, ele não estava falando mal do Décio, estava falando bem!

Quando percebe que se excedeu sem razão, Leminski senta, seguindo-se um  daqueles silêncios onde só os pigarros falam,  depois Pé Vermelho continua falando entre sussurros e risadas abafadas. Nas férias de verão,  encontrará Leminski e Alice numa praia, na ilha de  Florianópolis, e, num quintal de rala grama com descuidada fogueira, discutirão azedamente até Pé Vermelho revelar:

– Eu não sou contra os concretistas, cara, e pra mim também poesia de protesto geralmente não presta. Gosto, por exemplo, de O Operário em Construção, do Vinicius, justamente porque tem uma construção poética, não só intenção política.

Leminski fica piscando atarantado, até que estende a mão. Depois do aperto de mãos, Leminski fala tá, então aparece lá em casa quando passar por Curitiba.

Pé Vermelho aparece na casa do Pilarzinho, a primeira, com sótão. Sílvio Back está lá e, na sala apertada onde falta conforto embora abundem almofadas, a conversa rola pela tarde entre cervejas e vodkas. Para tira-gosto, apenas umas bolachas muchibas. Sílvio se vai, Pé Vermelho fica, convidado para uma janta parca, que depois de várias visitas descobrirá ser  regra monastérica da casa, ou, conforme Leminski num poema, “esta sopa rala que mal dá para dois”. Depois da janta, o anfitrião oferece pouso:

– Já dormiu em sótão?

Pé-Vermelho aceita a oferta por curiosidade, desde menino  tem fascínio por sótãos, tão presentes nos gibis do Pato Donald, de Bolinha e Luluzinha, criações do hemisfério Norte onde as casas tem sótãos. Anos depois, visitará a Europa e se desencantará com sótãos, até escrevendo haicaipira: Sou tão infantil / sempre quis morar em sótão / ainda bem que não tem sótão no Brasil.  Naquela noite, porém,  mal consegue ver como é o sótão sem luz onde dorme num colchonete, tão cansado quanto bêbado, só conseguindo vislumbrar pilhas lacradas de livros em redor, como Leminski anunciou:

– Você vai dormir cercado por uma obra-prima!

De manhã, Pé Vermelho vê que são as pilhas da primeira edição de Catatau, que Leminski irá distribuindo ao longo de anos. Dará um a Pé Vermelho, que lerá as primeiras páginas e depois páginas salteadas, enfim desistindo, para comentar numa próxima visita:

– O começo é interessante, o europeu deslumbrado com a natureza tropical, daí fumando maconha e despirocando naquele palavrório sem fim. Mas, narrativamente, é uma solução fácil, além de tanto trocadilho acabar enchendo o saco, por mais cultos que sejam. Seu Catatau é só sintagma[1], cara, não tem paradigma, feito construção sem esteio, não pára em pé! É um anarquétipo de romance!

Leminski rebate de pronto:

– Mas não é construção, é caminho! Não pretende chegar a lugar algum, só encantar, divertir, intrigar, como quem passeia por uma estrada da palavras e sensações! Eu não quero ensinar nada a ninguém, coisalguma propor, criar um ciclo de eventos se encaixando para um fecho final, porque acho que nada fecha, tudo se abre, tudo é flor o tempo todo morrendo e renascendo! O Catatau não é para ser lido por quem quer chegar ao fim, mas por quem entende e sente que não existe fim nem começo, a vida é um acidente contínuo sujeito a virar o direito pelo avesso! Você quer uma direção, um, como dizem, sentido? Bem, o Catatau é uma festa para os cinco sentidos, a audição, a visão, o olfato, o paladar e o tato, sim, é só ler sem preconceito que você entra na festa, se quiser entrar pra dançar e se divertir com as palavras, mas, se quiser entrar pra sair casado com uma ideologia ou uma visão do mundo, tiao! Leve meu livro para um sebo que será achado por quem gostar de um passeio turbicanabinado por uma floresta signífica! Quem quiser lógica e coerência e seqüência e moral da história, vai achar tanta graça no Catatau como em minhoca subindo num pau-de-sebo debaixo de um sol de derreter o sebo do pau!

Pé Vermelho, três décadas depois, lembra apenas do sentido geral e de algumas palavras inesquecíveis do discurso de Leminski, mas dessa imagem lembra perfeitamente, a minhoca tentando subir num pau-de-sebo a se derreter ao sol. Como não esquece o último jorro de palavras do Polaco naquele fim de tarde:

– História com começo-meio-fim, mesmo que não nessa ordem exatamente, muitos já escreveram desde Lucas, Mateus e Marcos, mas eu sou mais o João do Apocalipse!

Mas cofia os bigodões, suspira fundo e fala que respeita a opinião:

– Tem quem gosta de biscoito fino e tem quem gosta de papa grossa.

– Me parece mais angu de camarão – retruca Pé Vermelho –  Os ingredientes podem ser finos mas não deixa de ser angu.

Leminski ordena de dedo em riste:

– Então diga o que é para você um grande livro!

– Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Leminski volta a suspirar fundo.

– É, é um grande livro. Gosto muito da primeira parte, A Terra.

Pé Vermelho nem acredita:

– Você gosta da primeira parte? Aquele palavrório geológico? É a parte chata, aliás chatíssima!!

Para você, diz Leminski:

– Você leu só as informações, procurando ação, mas as ações da Terra são pouco perceptíveis. O planeta gira e a gente nem percebe. Eu li o ritmo das palavras, aquele intrincado verbal quase mineral de tão áspero. É a prosa mais densa da literatura brasileira e, por isso mesmo, rejeitada por tantos e apreciada por poucos – conclui sorrindo para o copo, bebe e bate o copo na mesa, encerrando assunto. E nunca mais falarão do Catatau.

(Três décadas depois, escrevendo este livro, Pé Vermelho resolve ler um pouco do Catataupara os netos Caetano, de seis anos, e Pietro, de cinco anos, na cama antes de dormirem. Abajur na cabeceira, eles ouvem a corrente de palavras, perguntando que palavra é esta, e esta outra. Pé Vermelho diz que são palavras diferentes, que ninguém usa, só o escritor do livro, palavras que  querem dizer o que a gente quiser  que cada palavra diga. Eles ouvem, rindo muito a cada nova “palavra esquisita”. Pé Vermelho lê o final: bêbado, quem me entenderá? – e eles gargalham, pedem mais, Pé Vermelho volta a ler trechos salteados, até que  eles dormem.

É, pensa Pé Vermelho, o Catatau funciona, ao menos como sonífero… Mas, na noite seguinte, os netos, mal deitam na cama, em vez de escolher um dos muitos livros infantis empilhados no criado-mudo,  pedem já olhando o teto onde a imaginação desfila suas imagens:

– Lê o Catatau, vô…

– …do bêbado engraçado.

Ficam em respeitoso silêncio enquanto o avô, feito uma criançona, não consegue ler com os olhos molhados.)

Na segunda casa no Pilarzinho, voltam a se encontrar várias vezes, e ali Pé Vermelho verá que o casal Alice-Paulo pratica uma mágica e simples hospitalidade.

Pouco tem eles a oferecer. O conforto na sala continuará dependendo de almofadas. A quem ligar avisando de visita, Leminski pedirá para trazer bebida. Quem já conhecer o esquema da casa, levará também comida. Mas sempre encontrará o casal sorrindo, a porta da sala aberta para um deque de ripinhas treliçadas onde, nos dias nublados, ele senta na posição de lótus para ler poemas para os visitantes ou, simplesmente, fumar falando sobre o que lhe vier à cabeça.

Relaxa / tempo não tem / taxa – Leminski ri muito quando Pé Vermelho lhe fala este  haicaipira, dizendo ser inspirado pela sua pensação/falação em alta voltagem.

– Fico honrado – diz Leminski – e feliz por você começar a fazer poesia de verdade em vez de discurso político rimado.

Alguns anos depois, Pé Vermelho contará que fez haicaipira respondendo ao dístico de Leminski: Ameixas / ame-as ou deixe-as (que funcionou como antídoto ao lema publicitário da ditadura, Brasil – ame-o ou deixe-o).

– E você sabe seu haicai de cor? – Leminski ironiza, Pé Vermelho finge que se esforça por lembrar: Ameixas são como amêndoas: / tendo-as, deixa-as / não tendo, te queixas.

Leminski ergue o copo:

– Lindo! Brindo!

Nas visitas à casa do Pilarzinho, Pé Vermelho presenciará cenas típicas da, para usar um inevitável lugar-comum, “personalidade ímpar” de Leminski.

Quando não está trabalhando em agência de propaganda, ele acorda tarde, passa o dia lendo, escrevendo, ouvindo música – e também bebendo, claro – para, no começo da noite, quando começa o telejornal na tevê, bocejar diante do mundo e, se enrolando feito bicho ou criança nas almofadas sobre o tapete da sala, dormir mesmo diante de visitas.  Acordará lá pela meia-noite e voltará a ler ou escrever. Alice se desculpará para o visitante:

– Ele é assim.

Passa carteiro, que Leminski vai atender curioso feito guri, volta com envelope na mão, gritando para Alice:

– É da editora!

Pega faca lambuzada de manteiga, lambe a manteiga, abre o envelope com a faca, dá uma olhada e grita para Alice que continua no fundo da casa:

– É o contrato!

Mal passa os olhos pelo  contrato de apenas uma folha frente/verso, pega caneta para assinar sobre uma estreita bancada que separa a sala do escritório. Suspira fundo antes de assinar, e Pé Vermelho, vendo que é contrato para edição de livro,  pega-lhe a mão da caneta:

– Você não vai ler antes de assinar?

Leminski sorri:

– Seja o que Zeus quiser.

E assina.

A biografia de Trotsky torna Leminski simpático a um partido trotskista, que o convida para animar uma convenção em Curitiba, e lá vai ele com o violão e a verve. É aplaudido, abafa, é paparicado. Ano seguinte, convidam de novo e ele vai respondendo a pedidos insistentes, dizendo que não, não vai de novo, não, não mesmo,  até que estrila:

– Não vou e querem saber porque? Porque dessa brincadeira já brinquei!

Conta isso a Pé Vermelho numa das visitas à casa do Pilarzinho, divertindo-se feito menino arteiro. Também gosta de contar o dia em que Caetano Veloso e Gal Costa chegaram à primeira casa do Pilarzinho, para conhecer o poeta, e ele estava caminhando sobre o muro, num exercício de equilíbrio. Saltou do muro, Gal Costa assustou, e ele sempre concluiria seu relato meninamente :

– Esperavam o que? Que eu estivesse sentado atrás duma escrivaninha com caneta numa mão e dicionário na outra, retrato de Machado ao fundo?!

Nas visitas, Pé Vermelho vai descobrindo que Leminski, ao contrário dos que bebem e ficam agressivos, fica doce, meigo, afetivo e emotivo. Um dia, depois de toda uma tarde falando sobre arte militar, de Leônidas a von Klausewitz, Pé Vermelho diz que é hora de voltar ao  hotel, pega a mochila em que trouxe vinhos e Leminski abraça, pegando pela nuca:

– Gosto de você, cara. Se fôssemos gregos, lutando nas Termópilas, gostaria de lutar a teu lado.

Pé Vermelho pensa que é brincadeira mas, saindo do abraço, vê que o polaco está com os olhos úmidos.

Quase sempre quando Pé Vermelho passa por Curitiba, é caminho do litoral, em férias ou para fins de semana na Ilha do Mehl, mas Leminski está trabalhando, fazendo tradução de livro ou frilas para agências de propaganda, às vezes passando textos de anúncios por telefone.  Mas ao telefone diz venha, venha, eu vou enganando e a gente vai conversando.

Pé Vermelho chega, abre o primeiro vinho e começam a conversar, de vez em quando Leminski caça papel para anotar alguma coisa. Meio da tarde, toca o telefone, é uma agência, querendo texto para out-door, ele anota os dados. Fim da tarde, toca o telefone, é a agência querendo o texto , ele fica procurando o papel das anotações.

– Pois é, eu ia agorinha mesmo ligar pra vocês, passei a tarde pensando nisso.

Dá uma olhada nas anotações, solta um suspiro fundo ganhando tempo, aí fala o texto de poucas palavras para o out-door. Explica porque, enquanto alguém anota do outro lado da linha. Desliga.

– Tim-tim! Dinheiro na caixinha!

E voltam a conversar. Pé Vermelho pergunta porque ele não atende de bate-pronto os pedidos das agências.

– Ah – ele passa a mão no bigode – Se não demorar, eles não dão valor, pensam que é fácil – e pisca  molecamente.

Às vezes se encontram noutros lugares. Pé Vermelho chega a Curitiba, liga, Leminski marca encontro no Largo da Ordem. “No bebedouro”, diz, e Pé Vermelho pergunta se é um bar com esse nome, mas Leminski já desligou. No Largo, Pé Vermelho vê um antigo bebedouro de cavalos, que se tornou patrimônio histórico depois de carroças e cavaleiros deixarem de transitar por ali. Leminski chega, acenando de longe, e vem sorrindo para o abraço. Depois enfia a mão em concha no bebedouro e sorve  um gole. Pé Vermelho estranha:

– Essa água não faz mal?

– Não para quem tem saúde cavalar.

Várias vezes ouvirá Leminski proclamar orgulhoso:

– Nunca fui a um médico! – emendando sussurrante: – Quando for, é pra morrer.

Confirmará isso num poema: “Fiz um trato com meu corpo. / Nunca fique doente. / Quando você quiser morrer, / eu deixo.”

E Pé Vermelho irá descobrindo que não é apenas poesia: é uma estratégia.

“Texto publicado com base na Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pela ANEL perante o STF”


[1] Grassava a febre do estruturalismo, tornando moda chamar de sintagma e paradigma os parágrafos e o enredo.

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2 comments on “Pellegrini enfrenta herdeiras e joga na internet suas memórias com Leminski

  1. EU? Comentar ? ah ah….só se for COMENTIR.

    • Acompanhei meio de perto, meio de longe,
      pois que nunca tomei maconha na minha vida e
      as contínuas cervejas no bar dos jornalistas cef Carlos Gomes
      nunca me deixaram bêbado,
      infelizmente.

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