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Popular, mas desprezado por acadêmicos, Vinicius de Moraes faria hoje cem anos

MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO – FOLHA DE SÃO PAULO

Poucos brasileiros encarnam tão bem a imagem padrão que se tem de um poeta quanto Vinicius de Moraes.

Nove casamentos, outras tantas paixões arrebatadoras, boêmia irrefreável e fome sem limite pela vida –contrabalançada por uma melancolia que só os mais próximos sabiam reconhecer– compuseram os 66 anos de vida intensa do escritor, compositor, diplomata, dramaturgo e jornalista.


“Foi o único de nós que teve a vida de poeta”, sintetizou Carlos Drummond de Andrade. O mineiro tímido falava com admiração (e um tantinho de inveja) da “independência de espírito” do colega. E parece ser este, curiosamente, o nó central da recepção acadêmica da obra literária de Vinicius: teria ele gastado muito de sua poesia na própria vida e pouco nos livros?

Vinicius de Moraes, poeta, compositor e diplomata, lê seu livro ‘Antologia Poética’

Vinicius de Moraes, que completaria cem anos hoje, é ainda pouco estudado e não tem muito espaço na universidade. Teses e livros de análise dedicados aos seus poemas são poucos, segundo poetas e professores ouvidos pela Folha.

Este deve ser um dos poucos sinais de desdém na trajetória do sedutor Vinicius, ainda mais se levarmos em conta o sucesso mundial de sua carreira na música a partir do final dos anos 1950, com o estouro da bossa nova.

Victor Rosa, mestrando que prepara dissertação sobre Vinicius, diz que quase não ouviu falar dele durante seu curso de letras na UFRJ. “Costumo dizer que o Vinicius é uma espécie de América [time de futebol]. Tudo mundo tem carinho por ele, mas não tem coragem de torcer.”

A repercussão crítica da obra de Vinicius ganhou impulso nos últimos anos, quando a Companhia das Letras passou a reeditar seus livros, com organização do também poeta Eucanaã Ferraz.

“Durante muito tempo a universidade esnobou Vinicius, mas ele não precisou dela para se firmar entre os leitores”, diz Ferraz. “Suas músicas angariaram novos leitores para a poesia. Hoje há um novo olhar para a obra dele.”

A carreira literária de Vinicius de Moraes teve uma trajetória curiosa. Seus primeiros livros, “O Caminho para a Distância” (1933) e “Forma e Exegese” (1935), depois renegados por ele, trazem versos com feição simbolista, de religiosidade opressiva e tom grandiloquente.

A grande virada começa a partir dos anos 1940, quando a sensação de culpa do poeta sai de cena e ganham espaço o erotismo, um ambiente solar e a ode às mulheres.

É a grande fase de Vinicius, com os célebres sonetos de “Poemas, Sonetos e Baladas” (1946) e “Novos Poemas (II)” (1959). Depois disso, seu foco passa a ser a música e a produção em poesia diminui.

“O sucesso com as canções obscureceu o lado poeta. Mas sinto que isso está mudando. Vinicius é o maior sonetista do Brasil, não deve nada aos grandes da língua portuguesa”, diz o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto.

‘FÁCIL DE FAZER’

José Castello conta que escreveu a biografia “Vinicius de Moraes – O Poeta da Paixão” (1994) para lutar contra o estigma de “poetinha” associado a ele. “Há um desprezo grande pelo lirismo de Vinicius, como se fosse algo menor, fácil de fazer. Ficou a imagem de um show man, um homem cercado por belas mulheres, o que acabou prejudicando a avaliação do real tamanho de suas poesias.”

Já o professor de literatura brasileira da USP Alcides Villaça diz que Vinicius ainda não foi compreendido de forma integral. “Ele é o poetinha, mas ao mesmo tempo tem um verso que diz ‘poeta sou altíssimo’. Ele está nessas duas partes e em tudo o que está no meio disso.”

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