Deixe um comentário

Candidatos a presidente do PT discordam da entrega de Libra

Candidatos a presidente do PT discordam da entrega de Libra

Quatro dos seis criticaram o processo do leilão  

O leilão do Campo de Libra, realizado pelo governo no último dia 21, provocou uma divisão dentro do PT. Em mais um debate entre os candidatos à presidência da legenda, realizado na última quinta-feira (24), em Brasília, quatro dos seis postulantes ao cargo criticaram a decisão de leiloar Libra e colocar a Petrobrás em minoria no consórcio que tem a presença da anglo-holandesa Shell e da francesa Total. A eleição interna do partido está marcada para 10 de novembro.

“Dilma privatizou rodovias, portos, aeroportos, o pré-sal e diz que não foi privatização. Não foi? Chamaram a Shell, a Total e as estatais chinesas para morder o nosso petróleo. É um processo de pilhagem”, protestou Serge Goulart, um dos candidatos ao comando do PT. No debate realizado na segunda-feira (28) em São Paulo, Markus Sokol também criticou o uso da repressão aos manifestantes que protestavam contra o leilão de Libra no Rio de Janeiro. “Apesar de não ter ocorrido registro de violência mais grave até com mortes, a ação repressora para aterrorizar os sindicatos é condenável. Houve intimidação. A violência começa assim”, alertou.

Segundo Valter Pomar, outro candidato ao cargo, é preciso ter uma postura de autocrítica em relação ao governo petista. “O nosso partido tem que estimular o governo brasileiro a não ter uma postura ambígua”, disse, numa referência à participação da força de segurança durante o leilão. “Não foram setores do movimento sindical que se opuseram ao leilão, foi a CUT, que é dirigida na sua maioria por petistas”, explicou, recebendo aplausos do auditório onde havia vários cartazes contra o leilão de Libra. Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, o leilão foi um equívoco. “O Brasil não deveria ter feito o leilão de Libra. A Petrobrás deveria explorar 100% do nosso petróleo. Essa é a posição da CUT e da FUP (Federação Única dos Petroleiros)”, assinalou Wagner, em nota da entidade divulgada após o leilão.

Markus Sokol acrescentou que “um governo do PT tem a obrigação de receber os trabalhadores para um debate”. Ele alfinetou ainda o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão. “Alguém estranhou ele não ter recebido os trabalhadores?”, ironizou. De acordo com Renato Simões, outro candidato à presidência do PT, o debate do governo com os trabalhadores e oposicionistas do leilão de Libra “deveria ter acontecido antes de sua realização”. “Em nenhum momento conseguimos aquilo que era essencial, que o partido debatesse o tema. O PT entra debaixo da mesa toda vez que tem embate entre movimentos sociais e o governo”, criticou.

Por outro lado, o cientista político e porta-voz do governo Lula, André Singer, afirmou, em artigo publicado no último sábado (26), na Folha de São Paulo, que “a biografia de Dilma vai pagar pela reviravolta”. “Primeiro a presidente Dilma Rousseff defendeu que seria um crime privatizar o pré-sal. Três anos depois, abriu a exploração da área a empresas estrangeiras”, afirmou. “Com isso”, prosseguiu Singer, “de acordo com [Ildo] Sauer e [Fábio Konder] Comparato, a União vai deixar de ganhar R$ 176 bilhões, além da perda de soberania”.

Singer questionou também o porquê do leilão. “A resposta, óbvia” [do governo], disse ele, “é que o Brasil não teria condição de realizar o serviço por si só”. Ele lembrou que “foi essa a afirmação do então deputado federal Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB-ES) em 2010 à Folha”. “‘Vamos precisar de centenas de bilhões de dólares para explorar o pré-sal e é uma sandice achar que a Petrobrás e o Estado brasileiro terão dinheiro para fazer tudo’, declarou o tucano, sendo redarguido por Dilma na forma relatada acima”, frisou.

Para Singer, “o compromisso da Dilma candidata parece mais adequado do que a ação da Dilma presidente, ao menos a julgar pela ação judicial impetrada pelo jurista Fábio Comparato e pelo engenheiro Ildo Sauer”. “Nela, há um trecho elucidativo do depoimento de Maria das Graças Foster, chefe da estatal, ao Senado em setembro. Segundo Foster, a Petrobrás, do ponto de vista técnico e operacional, poderia dar conta de 100% da exploração de Libra. “O que a empresa não conseguiria era pagar os R$ 15 bilhões que o governo colocou como ‘bônus de assinatura’ para uma companhia participar do leilão”, acrescentou.

“Mas qual é o sentido de o governo cobrar de uma empresa do próprio governo um dinheiro que ela não tem para entrar em um leilão que ele não precisava fazer? Aí está o pulo do gato. O alto valor de entrada, criticado até pelo ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, teria sido posto para impedir que a Petrobrás sozinha pudesse explorar a maior fonte petrolífera já descoberta no país”, completou Singer, que também é membro do Instituto Lula.

Outro integrante do PT que manifestou contrariedade com a decisão do governo de leiloar Libra foi o diretor de exploração e Produção da Petrobrás no governo Lula, Guilherme Estrella, considerado o descobridor do pré-sal. “As minhas críticas concentraram-se no aspecto estratégico para o Brasil. Trata-se de gigantesco volume de petróleo, agora compartilhado com sócios que representam interesses estrangeiros – de potências estrangeiras -, sobre cujo alinhamento com o posicionamento geopolítico de um país emergente da importância do Brasil não temos a menor garantia”, disse ele, em entrevista nesta segunda-feira à Eleonora de Lucena, da Folha.

Estrella cobrou que “a Petrobrás, que mapeou a estrutura de Libra e perfurou o poço descobridor, como empresa controlada pelo Estado brasileiro, deveria ter sido contratada diretamente, como permite o marco do Pré-Sal. Aliás, a inclusão desta alternativa teve como causa a eventualidade de se tratar com reservas cujas dimensões tivessem valor estratégico para o Brasil, e este é inquestionavelmente o caso de Libra”. “A contratação direta da Petrobrás para desenvolver e produzir Libra seria a melhor estratégia brasileira, diante do papel destinado ao Brasil no cenário geopolítico e energético mundial ao longo, no mínimo, desta primeira metade do século 21”, argumentou.

Depois de lembrar que a própria presidente da companhia afirmou que a Petrobrás tinha o maior interesse em operar Libra sozinha, Estrella disse que “acusar de xenofobia aqueles que defendem esta opinião é injusto, equivocado e apequenador da dimensão estratégica do assunto em debate”. “Seria equivalente a acusar este governo de centralizador e arrogante, disposto a exercer um direito político – ainda que legal – de decidir questões desta magnitude de forma monocrática, sem ouvir, no mínimo, suas bases de apoio organizadas na sociedade. O que, certamente, não é o caso do atual governo, como todos sabemos”, afirmou o ex-diretor da Petrobrás.

SÉRGIO CRUZ

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: