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A SOCIOLOGIA, OS SOCIÓLOGOS E SEUS EQUÍVOCOS

A SOCIOLOGIA, OS SOCIÓLOGOS E SEUS EQUÍVOCOS

Por Cláudio Fajardo

 

Em Marx a sociologia é o Materialismo Histórico. Não é nem o positivismo de Conte nem o idealismo objetivo de Weber. Apesar de contribuições variadas que ora seguem uma dessas escolas, ora funde hermeneuticamente elementos de duas ou mais e ora segue caminhos supostamente novos.

Dizer-se de esquerda hoje é dizer quase nada. O governo se diz de esquerda, o PSOL se diz de esquerda, o PSTU igualmente e até os Black Blocs. Os socialistas ortodoxos, os heterodoxos, os que defendem a transição do capitalismo para o socialismo com a atuação fundamental do Estado e aqueles que repudiam veementemente o uso do Estado como instrumento de transição ou transformação. Sempre quando quisermos designar alguém como de esquerda, seja  um partido, um movimento social ou um núcleo de pessoas com certa afinidade teórica, devemos qualificar o por quê dessa designação.

Ontem eu publiquei uma entrevista de Chico de Oliveira, fundador e hoje crítico mordaz do PT e hoje publiquei algumas considerações críticas (que reproduzo anexo a este texto. Agora publico outra entrevista de outro sociólogo, Demétrio Magnoli, que se diz de esquerda e classifica o governo de Dilma de direita. Após sua entrevista levanto alguns pontos que merecem destaque e uma crítica.

 

ENTREVISTA

Antônio More/ Gazeta do Povo

MANIFESTAÇÕES DE RUA

“Eu sou de esquerda; o governo é de direita”

Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana Gazeta do Povo

Publicado em 10/11/2013 | YURI AL’HANATI

Convidado para o Congresso da Primavera, evento realizado na última semana em Curitiba pela seccional paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), o sociólogo Demétrio Magnoli diz que, embora as reivindicações dos movimentos das ruas tenham sido vagas, foram extremamente claras. “Ao levantarem o problema de direitos universais e de serviços públicos universais, como saúde e educação, os protestos perfuram a lógica política do atual governo”, diz. Considerado uma voz de direita entre os intelectuais brasileiros, Magnoli, nesta entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, não poupa críticas à atual gestão federal e à crise de representatividade.

Já é possível tirar uma conclusão sobre os protestos de rua e seu lugar na história recente?

Já dá para ter conclusões iniciais. A primeira coisa é separar as jornadas de junho do que veio depois. As jornadas de junho foram manifestações multitudinárias [que reuniram multidões]. Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas e levantaram temas que dizem respeito a direitos universais, como saúde e educação. O que veio depois foram movimentos de minoria, que é uma coisa completamente diferente. São reivindicações particulares de movimentos sociais, essencialmente governistas, e que operam dentro da lógica política do atual governo. A novidade de junho foram essas manifestações que, ao levantarem o problema de direitos universais e de serviços públicos universais, perfuram a lógica política do atual governo. As reivindicações foram justamente por saúde e educação, que são coisas que foram relegadas ao longo desses dez anos de suposto progresso e avanço do Brasil. É nesse sentido que as manifestações criam um novo cenário político, onde mesmo que tenham adormecido, deixaram mensagens que continuam a repercutir e que vão repercutir nas eleições de 2014.

É possível que as manifestações renasçam?

É difícil dizer isso, porque as manifestações de junho foram interrompidas por ações de vandalismo que repugnam as pessoas. Os grupos de vândalos que hoje atuam nas ruas basicamente estão mandando a mensagem de que rua é lugar de vândalo. Eles contaminam todas as manifestações com a depredação, a violência. A conclusão que muitas pessoas começam a tirar – erroneamente, na minha opinião, mas passível de ser compreendida – é que se manifestar é se misturar com vândalos. Então acho difícil dar uma resposta clara neste momento. É preciso saber se as pessoas comuns, em suas reivindicações democráticas, vão conseguir retomar o lugar que é delas, que é o lugar de se manifestar por direitos, ou se esse lugar vai ser sequestrado de uma maneira mais definitiva por grupos de vândalos e por movimentos sociais organizados que muitas vezes flertam com os vândalos.

Muitas propostas de reforma política estão surgindo para tentar superar a crise de representação. Como o senhor as vê?

Só existe uma proposta de reforma política com começo, meio e fim, que é a do governo. O resto são ideias soltas. A do governo vai na direção oposta à mensagem das ruas. A mensagem das ruas é que a elite política se cristalizou como uma casta hostil ao interesse público, e a proposta de reforma política do governo é cristalizar ainda mais essa elite. Fazem isso dando todo poder aos partidos, com propostas de listas partidárias fechadas que não permitem ao povo votar em candidatos nominais, apenas em partidos. E há também a proposta de financiamento público exclusivo de campanha, o que significa verter dinheiro do povo para toda a elite política que o povo odeia. Querem me obrigar a financiar candidatos em que eu nunca votaria. Essas propostas distorcem ainda mais o sentido da representação política.

Em dez anos de PT no governo, houve uma confusão das relações de direita e esquerda do Brasil?

Eu acho, e já escrevi sobre isso, que o governo é conservador porque se nega a fazer uma série de reformas que tornariam a representação mais efetiva e mais transparente. É conservador porque estimula o capitalismo de Estado. É conservador, e mais do que isso, é restauracionista, porque quer restaurar o corporativismo varguista. Isso confunde um pouco as pessoas. Elas tendem a achar que o governo é de esquerda, mas ele tem muitas características de direita. A única característica de esquerda que ele conserva é uma atração incontrolável por ditaduras de esquerda. Mas apenas isso não faz alguém ser de esquerda. Eu sou de esquerda; o governo é de direita.

A “peemedebização” do governo contribui para essa percepção?

A “peemedebização” é o sintoma mais claro da formação de uma ampla coalizão da elite política em torno do PT, que é o escudo protetor dessa elite. É um fenômeno interessantíssimo do ponto de vista histórico e sociológico, porque o PT é um partido que surge contra a ordem, mas se transforma em um partido da ordem quando chega ao poder. E hoje se converte em um partido da velha ordem.

Minhas observações (CF)

Demétrio Magnoli acerta parcialmente quando se refere às jornadas de junho como “A novidade de junho foram essas manifestações que, ao levantarem o problema de direitos universais e de serviços públicos universais, perfuram a lógica política do atual governo. As reivindicações foram justamente por saúde e educação, que são coisas que foram relegadas ao longo desses dez anos de suposto progresso e avanço do Brasil. É nesse sentido que as manifestações criam um novo cenário político, onde mesmo que tenham adormecido, deixaram mensagens que continuam a repercutir e que vão repercutir nas eleições de 2014.” Eu disse que acerta parcialmente porque não é verdade que o Governo Lula-Dilma não deram atenção à educação. A construção de universidades no governo de Lula foi a maior de toda a História do Brasil e, ainda mais, associada ao Pró Uni  deu oportunidade que jamais tiveram os jovens brasileiros de fazer um curso superior. No restante é verdade.

O referido sociólogo não acerta quando tenta diferenciar os movimentos que vieram depois de junho. Diz ele que são movimentos de minorias,  com reivindicações particulares feitas por grupos essencialmente governistas. A luta dos professores do Rio de Janeiro, pode-se dizer, de característica reivindicatória particular, mas dizê-los governistas não é o caso. Tal qual ocorreu com a luta do pré-sal. Todas as centrais sindicais, o movimento social e intelectuais e artistas nacionalistas se posicionaram contra. Não são nem minorias nem “essencialmente” governistas. Essa era uma luta pela soberania nacional. Demetrio não deve levar isso em consideração. Pois, logo a seguir chama o governo de conservador e restauracionista, porque quer restaurar o corporativismo de Vargas. Não é por essa razão que o governo é conservador, e tampouco é restauracionista. Lula procurou ter uma relação democrática com os movimentos populares mas isso não é restauracionismo. Já o governo Dilma não quis manter essa mesma relação que Lula tinha. É irreal a constatação, portanto.

A alusão a Vargas nos deixa claro que esse sociólogo Demétrio não comunga com as idéias nacionalistas. Não deve, portanto, levar em conta a contradição fundamental da realidade brasileira: Nação versus imperialismo. Boa parte da esquerda brasileira é herdeira do nacionalismo. A essa esquerda ele não pertence. Também não pertence à esquerda que defende o socialismo e entende a importância das repúblicas socialistas na História da Humanidade. Então a que esquerda pertence esse “sociólogo”. Não creio que seja também um marxista. Não é positivista porque não é fiel aos fatos e será um weberiano? Weber disse ao tratar sobre método em sociologia, que a razão humana é finita e o real é infinito, será que a razão desse sociólogo é ainda menor do que comumente é a razão humana?

Que bicho estranho é essa figura? Não é?

Sobre Chico de Oliveira

Já havia lido e reproduzido o texto da entrevista de Chico de Oliveira. Não tive tempo de tecer considerações. Mas, sumariamente agora o faço.

Lula. O que ele disse sobre o Lula, que é um conservador, é verdade mas não é toda a verdade. Lula, a meu ver, errou na indicação de Dilma justamente como criticou o Chico. Mas, Lula é uma personalidade mais complexa. Sua política é mais complexa. Ele é, de fato, um conciliador mas isso não ruim em si.. Podemos ter esse comportamento e ele contribuir para uma transição pacífica de um estado de coisas para outro. Lula errou ao não ir mais fundo nas transformações. Aí, creio, não foi somente o Lula mas toda a entourage defensora da santa governabilidade. Lula teria apoio popular e até institucional pra transformar a política econômica, não o fez.

Estado Indígena. É uma ingenuidade do Chico a idéia de um estado indígena. Isso não é revolução, isso é entreguismo. Acho que ele não entende nada de índios, pois não existe somente um povo indígena, uma nação indígena, existem várias nações e várias culturas indígenas. O correto será um Estado Brasileiro que abrigue e respeite a diversidade cultural dos povos indígenas. Os irmãos Vilas Boas foram preservacionistas, além de integracionista. A antropologia anglo-saxônica que hoje defende a autonomia dos povos indígenas é a mesma antropologia que coonestou a dizimação dos povos primitivos. Se promovêssemos a autonomia hoje, no dia seguinte estariam esses povos colonizados pelas nações imperiais. É ingênuo, portanto.

Capesinato Brasileiro  Nós não tivemos a mesma formação histórica que os europeus, mas isso não quer dizer que não tivemos campesinato. Até a metade do século passado nossa população era majoritariamente rural. Isto é, diferente da urbana. Os valores, os costumes e a ideologia dessas populações rurais eram bem diferentes do que as que se formaram nos centros urbanos. Hoje a população é majoritariamente urbana, a população rural hoje é mínima e não disputa mais a hegemonia cultural e política.

Black bloc.  Esses grupos atrapalham as mobilizações pacíficas. A sua violência é improdutiva. Tem o efeito dos provocadores profissionais. A população fica temerosa em participar dos protestos por causa deles.

A entrevista de Chico de Oliveira está publicada em: https://blogdofajardo.wordpress.com/2013/11/10/assustaram-os-donos-do-poder-e-isso-foi-otimo-diz-o-sociologo-chico-de-oliveira/

 

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