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Sérgio Vaz: No rolezinho, jovens devolvem “educação de qualidade”; periferia vive a sua Primavera de Praga

 

publicado em 16 de janeiro de 2014 às 20:27

Sérgio Vaz, o poeta da Cooperifa, cooperativa cultural da periferia de São Paulo que este ano completa 13 anos:

“Às vezes as pessoas acham que a gente mora numa grande senzala. Parece que somos incapazes de falar sobre literatura, sobre política, sobre economia. Nós parecemos uma ilha de Lost! Eles [da elite brasileira] estão surpresos: Quanto pobre! Quanto preto! Não somos brasileiros, somos palestinos. Temos de criar aquela OLP, Organização para a Libertação da Periferia”.

Rolezinho:

“São os jovens que não tem educação, são os jovens que não tem saúde, somos nós os pretos — como diria Castro Alves, somos nós, os teus cães. A sociedade colocou embaixo do tapete, mas não cabe todo mundo. O Estado tem ódio do pobre e do negro. Eu não sei de onde vem tanto ódio!”

Sobre a poesia, citando Ferreira Gullar:

“Só é justo cantar quando seu canto arrasta consigo pessoas e coisas que não tem voz”.

Sobre as mudanças vividas pela periferia de São Paulo nos últimos anos (já existem 40 saraus como o da Cooperifa):

“Muitos coletivos culturais aconteceram na comunidade. Não só na nossa, como na periferia de São Paulo. Eu acho que hoje a gente vive a nossa primavera periférica, nossa Primavera de Praga. Eu acho que estamos vivendo nossa Tropicália, nossa Bossa Nova, nossa Nouvelle Vague. Todos os movimentos que viveu a classe média nos anos 60 e 70 estamos vivendo agora. Talvez menos midiáticos, talvez à sombra da grande mídia, do grande público, mas estamos vivendo”.

Sobre consumo na periferia:

“É lógico que sou contra o capitalismo compulsivo, essa coisa desenfreada. Mas nós ficamos muito tempo longe das coisas… Dizem: não compra carro que tem muito trânsito! Eu entendo, mas há de entender a gente! Pedir pra gente não comer para não acabar com a natureza é muita sacanagem!”.

Sobre o funk ostentação:

“O jovem tá pedindo socorro ali. Se você quiser entender o jovem, é aquilo ali. A educação é aquela ali, a cultura é aquela ali, a saúde é aquela ali. Com a falência do ensino público você não quer que o cara canteConstrução [de Chico Buarque], né? É isso o que a molecada tá vivendo, sem instrução e com vontade de consumo”.

Sobre as faixas de ônibus, que despertam rejeição dos donos de automóveis em São Paulo:

“O automóvel carrega uma pessoa. O nosso, na M’Boi Mirim [avenida] carrega 200 [refere-se ao ônibus]. É a barbárie. Nossa sociedade não é generosa. Pessoas que tiveram tudo são contra quem não tem nada”.

Sobre o papel da escola na Zona Sul:

“A gente abandonou a escola, abandonou os professores, abandonou os alunos e ficamos presos em casa com o cu na mão tentando entender a violência! Aí o cara chega na sociedade e diz ‘eles fazem funk ostentação’. E você queria que ele tocasse Bach ou Beethoven? É muito milagre. É acreditar muito em Deus. E olha que os caras ainda querem cantar!”.

Sobre o racismo, depois de ter visto o Museu do Holocausto em Berlim e não ter visto equivalente sobre a escravidão, no Brasil:

“Não tem branco aqui nesse país. Somos todos negros. Ainda que o cara tenha simpatia pelo Hitler ou pela Ku Klux Klan, é negro e ainda da América do Sul! Assista o Datena e olhe como foi tratado o helicóptero com 400 kg de cocaína [apreendido em Minas Gerais] e compare com o [tratamento do] jovem que vende uma paranguinha na beira na favela”.

Sobre o fato de usar a ironia e o humor em suas falas:

“Sorrir enquanto luta é uma forma de confundir o inimigo”

No topo, as poetas que lançaram o livro Pretexto de Mulheres Negras durante o mais recente sarau; abaixo, público ouve poetas, rappers e repentistas, que se inscrevem livremente [Fotos e vídeos, Padu Palmério].

por Luiz Carlos Azenha

Há algo novo no ar. Sabemos disso com absoluta certeza desde as grandes manifestações de junho de 2013.

É possível sentir que o tremor subsiste neste bar que é sede do Sarau da Cooperifa, nas proximidades da avenida M’Boi Mirim, na Zona Sul de São Paulo.

Para quem não tem intimidade com a capital paulista, há imensos dormitórios de trabalhadores na megalópole: estamos num deles. É o que se chamaria, numa sociedade industrial, de bairro eminentemente proletário. Mas, com a pronunciada ascensão social registrada a partir do início da era Lula, em 2002, as coisas já não são tão simples de descrever. Há gente de classe média no bairro. Da nova classe média. Há remediados. Pobres. E, especialmente nas moradias precárias das favelas, há também miseráveis.

As mesmas inquietações que a classe média branca dos Jardins ou do Leblon ou da Savassi sente ao ver seu espaço invadido pelos “de fora” também existe aqui: há um rearranjo social acumulado com uma explosão de novas demandas e possibilidades. Aqui o Brasil está em movimento veloz. Tem fome de novidades e mudanças. Um despertar ajudado pelas redes sociais que driblam o desprezo dedicado pela grande mídia aos pobres e negros.

O sarau, organizado pelo poeta Sérgio Vaz, está completando 13 anos de existência. Enquanto os poetas apresentam seus versos, dá para constatar a diversidade nas mesas. Há senhoras da terceira idade, crianças brincando de videogame no celular do pai ou no ipad da mãe, há vários casais e jovens, muitos jovens.

Por mais que haja distinção de origem e classe dentre os que frequentam o sarau esta noite, a experiência comum dispensa explicações elaboradas sobre a violência policial: é algo cotidiano, sofrido ou testemunhado. O racismo, a discriminação e o preconceito deixaram feridas abertas em todos os que estão aqui. É a humilhação compartilhada, nas ruas e repartições, muitas vezes ao longo de toda uma vida.

O prazer de compartilhar a luta contra o racismo também está presente, como esteve nas grandes campanhas pelos direitos civis dos Estados Unidos, nos anos 60 (curiosamente, durante o evento, tive um flashback da campanha pré-presidencial do pastor negro Jesse Jackson, que acompanhei no avião do candidato, como repórter, nos Estados Unidos, nos anos 80).

Existem ecos distantes de Malcolm X nas palavras do poeta Sérgio Vaz, quando ele se refere elogiosamente aos brancos “solidários na batalha contra o racismo”.

O reconhecimento de que existe um muro que os separa da “cidade” — que é como a região mais rica de São Paulo muitas vezes é chamada — é generalizado, tanto quanto a determinação de saltar o muro a qualquer custo.

A desconfiança da mídia patronal tem, na outra face, o desejo de reconhecimento, hoje uma possibilidade que independe das redações dos grandes órgãos da mídia (You Tube e Facebook que o digam). A Vejaé descrita num dos versos como antônimo de “verdade”. Vaz relembra o episódio em que um funcionário da TV Globo foi expulso do bar por tentar rearranjar todo o mobiliário para “facilitar” as filmagens. Foi uma forma de rejeitar a ideia de que o sarau é como cenário de novela, habitado por gente sem autonomia, como se fossem atores e atrizes lendo roteiro alheio.

Autonomia, aqui, é palavra-chave.

O sarau de todas as quartas-feiras, aliás, É o Jornal Nacional do bairro. Os versos, muitos dos quais foram escritos nas últimas horas, falam dos assuntos que interessam diretamente ao cotidiano dos presentes: amor, morte, vitórias e dificuldades.

Soam como as manchetes de poetas e rappers. Dá para brevemente tomar o pulso do bairro. Os versos mais aplaudidos da noite denunciam a Copa do Mundo como afronta às carências dos bairros mais pobres. “Enfia os 20 centavos no SUS”, brinca a jovem poeta, em referência ao corte nas tartifas de ônibus obtido no ano passado, em São Paulo, depois dos protestos organizados inicialmente pelo Movimento Passe Livre (MPL).

O rolezinho é o assunto da noite. Há uma identidade quase instantânea com os participantes, por expressarem, mesmo que de forma indireta, o grito contra o preconceito, a humilhação histórica e a crença elitista de que o negro “deve saber o seu lugar”.

Bem que na entrevista que antecedeu o sarau Sérgio Vaz havia me alertado: a periferia está vivendo seus dias de Primavera de Praga, uma referência ao levante contra forças exteriores de ocupação — no caso, os soviéticos na extinta Checoslováquia.

Quando diz “periferia”, Sérgio Vaz quer dizer os negros e pardos da periferia.

Eles estão em movimento. Estão inconformados. E tem pressa.

Quem vier fazer campanha aqui em 2014 deve trazer os assessores de educação, saúde e transportes. Mas não esqueça de trazer também os de igualdade racial. Vai fazer toda a diferença.

[O Viomundo não aceita patrocínios com o dinheiro público que poderia ser usado para construir creches na periferia. Conteúdo exclusivo como este é totalmente bancado pelas assinaturas de nossos leitores, a quem agradecemos de coração. Veja também as entrevistas do jurista Fabio Konder Comparato e a do antropólogo Alexandre Barbosa Pereira]

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