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Emiliano Perneta 1866-1921

Poeta brasileiro, Emiliano Perneta, nascido a 3 de janeiro de 1866, emCuritiba, no Paraná, e falecido no mesmo local, a 19 de janeiro de 1921, éconsiderado um dos grandes nomes do simbolismo do Brasil.
Com 17 anos, publicou os seus primeiros poemas em O Díluculo, de Curitiba.Dois anos mais tarde Emiliano Perneta mudou-se para São Paulo, onde, em1888, foi um dos fundadores da Folha Literária. Ainda nesse ano, publicou asobras poéticas parnasianas Músicas, assim como Carta à Condessa d’Eu.Paralelamente, dirigiu a Vida Semanária e colaborou no Diário Popular e naGazeta de São Paulo.
Em 1889, fez o bacharelato em Direito e foi viver para o Rio de Janeiro no anoseguinte. Aí continuou a colaborar na imprensa, nomeadamente em a FolhaPopular, onde surgiram as primeiras manifestações do simbolismo, movimentoliterário ao qual viria a ficar ligado.
Emiliano Perneta regressou ao Paraná, onde fundou a revista Victrix, em 1902.
Lançou as obras poéticas Ilusão, em 1911, Papilio Innocentia (destinada a umaópera), em 1913, e Pena de Tailão, em 1914).
Após a sua morte, em 1921, foram ainda lançados os inéditos setembro ePoesias Completas.

Canção do Diabo

Aqui, um dia, neste quarto
Estava eu a ruminar,
Mas como um ruminante farto,
O tédio amargo, o atroz pesar…

O vento fora pela noite,
Demônio que blasfema em vão,
Cortava rijo como o açoite,
Uivava como um cão.

Eu meditava quanto a vida
Me foi cruel, me foi cruel:
Supus que fosse uma bebida
Doce, mas foi veneno e fel!

E, sobretudo, que ato breve
Dessa tragédia para rir…
Quando de leve, pois, de leve,
Senti a porta se entreabrir…

O quarto todo iluminou-se,
Mas de uma claridade tal,
Como se fosse dia, e fosse
Dia de festa nupcial.

E um vulto, bem como um segredo,
Mais belo do que uma mulher,
Sorriu-me assim: “Não tenhas medo,
Eu sou o arcanjo Lúcifer.

Trêmulo de um pavor covarde,
Fugiste-me sempre, porém
Sabia eu que, cedo ou tarde,
Serias meu, de mais ninguém.

Que, ó meu querido, e pobre artista,
Todo a fazer teu próprio mel,
Tu sempre foste um diabolista,
Um anjo mau, anjo revel.
Ora, fugiu-te a primavera,
E os derradeiros sonhos teus:
O céu, a mais banal quimera,
Teu próprio Deus, teu próprio Deus.

A sorte, mesmo, a prostituta,
Inda mais nua que Lais,
Funambulesco ser, escuta,
Quis todo o mundo; e a ti não quis.

O seio abriu, que tanto exala,
Ao proxeneta, e ao ladrão;
A ti, porém, indo beijá-la,
A fêmea torpe riu-se: não!

Teu coração, alma ansiada,
Teu coração, como um Romeu.
De tanto se bater por nada,
Não sei como inda não morreu.

Teu coração, um cata-vento,
De cá pra lá sempre a bater,
Só encontrou o enervamento,
E a máscara do falso prazer.

As damas, bem como um cavalo,
Sobre esse coração d’abril,
Passaram, quase sem olhá-lo,
Nem abraçá-lo, poeta sutil.

Ninguém te amou, nem pode amar-te,
Nem te entendeu, ser infeliz,
Mas eu, ó triste lírio d’arte,
Sempre te amei, sempre te quis.
O teu furor pela beleza,
Indiferente ao bem e ao mal,
Desoladora guerra acesa,
E, sobretudo, ódio infernal;

A tua esfaimação de oiro,
A sede de subir, subir,
Além daquele sorvedoiro
D’astros e pérolas d’Ofir;

O orgulho teu, furioso grito,
Luxuriosamente cruel,
Crescendo para o infinito,
Como uma torre de Babel.

Orgulho infindo, orgulho santo,
E diabólico, bem sei,
Que tanto horror tem feito, tanto,
Ah! Eu somente o escutei.

E disse: aquele é meu, aquelas
Mágoas cruéis são minhas, eu
Vou levantá-lo até as estrelas,
Até a luz, até o céu…

Vou lhe mostrar reinos de opalas,
Tantas cidades ideais,
Que há de querer talvez contá-las,
Sem as poder contar jamais.

Vou lhe mostrar torres tão grandes,
Torres de ouro e de marfim,
Cem vezes mais altas que os Andes,
Tantas, tantas que não têm fim.

E toda a glória minha, toda,
A ele, cuja imaginação
Inda é mais rica e inda é mais douda
Do que a do próprio Salomão.

Vendo-o descer a encosta rude
Dos anos maus, o elixir
Eu lhe darei da juventude,
Que o faça rir, que o faça rir…

Que é só bebê-lo, e embora exausto,
Embora quase morto já,
O triste e magro doutor Fausto
Reflorirá, reflorirá!

E há de subir comigo, um dia,
Há de subir comigo, a pé,
Por essa longa escadaria,
Que sobem só os que têm fé.

E eu, o flagelo, eu, o açoite,
Eu, o morcego, o diabo, cruz!
Estranho príncipe da noite,
Hei de inundá-lo só de luz!

Hei de lhe dar uma tão rara
Virtude, que baste ele olhar,
Basta querer somente, para
Que o vento acalme e a voz do mar.

E hei de fazê-lo de tal modo,
De tal fluidez, que ele por fim,
O ser humano, o limo, o lodo,
Se torne bem igual a mim.

E tudo só para ofuscá-lo,
Para encantá-lo, tenho, e lhe dou:
A minha espada e o meu cavalo,
A minha glória… E aqui estou.”

Olhei. Brilhava-lhe na fronte
A estrela d’oiro da manhã,
Como num límpido horizonte:
-Eu serei teu irmão, Satã!

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