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‘Não adianta maquiar, o país cresce menos do que deveria’, diz Eduardo

 

Para governador, Dilma não teria feito tantas promessas em Davos se situação econômica do país fosse maravilhosa

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, pré-candidato à Presidência da República pelo PSB, assinalou que o governo vem fazendo “malabarismos contábeis” para passar a idéia de que está tudo bem no país, mas, o que se observa é que “a economia está andando na contramão”. Se o país estivesse tão bem como se tenta passar, por que o governo teria feito tantas promessas para tentar atrair executivos de multinacionais no encontro de Davos, indagou Eduardo, referindo-se ao discurso de Dilma proferido na ocasião. Ávida por agradar os endinheirados, a presidente prometeu aos especuladores juros ainda mais altos e ofereceu-lhes “de bandeja” o seu suculento pacote de “concessões” nas áreas de infraestrutura e de energia (petróleo e gás). Tudo anunciado como sendo a grande solução para o desenvolvimento do Brasil.

“A geração de empregos recuou mais de 18% em 2013. É o pior resultado dos últimos dez anos e forte sinal do desaquecimento da nossa economia. O FMI estima que, em 2014, o crescimento médio mundial do PIB será de 3,7%, enquanto o do Brasil ficará em 2,3%”, afirmou o governador. “O país está crescendo menos que deveria e também abaixo do resto do planeta e não adianta maquiar resultados para mostrar que a economia está boa”, advertiu o governador.

CICLO

Para o político pernambucano, a crise e o comportamento de avestruz assumido pelo governo, “fazem com que os investimentos no Brasil estejam se reduzindo, causando uma geração cada vez menor de empregos e esfriando ainda mais a economia”. Para Eduardo, isso é um “ciclo vicioso e bastante perigoso, que só será rompido no momento em que a situação econômica atual for tratada de forma realista”. “Eu aposto no Brasil e na capacidade do nosso povo”, salientou Eduardo Campos, que é também presidente nacional do PSB.

O discurso de Dilma em Davos realmente chamou a atenção, tanto pelo tom completamente fora da realidade em relação à estagnação em que se encontra a economia brasileira, como pela postura ainda mais entreguista do que de costume por parte da mandatária. Ela clamou solicitamente para que os donos de fortunas venham ganhar mais dinheiro no Brasil. Para isso, ou seja, para “atrair” os dólares redentores, ela prometeu manter os juros nas alturas e garantir o superávit primário (reserva de verbas do orçamento para pagamento de juros) num nível que os satisfaça integralmente. É certo que os especuladores não ficaram satisfeitos com essa parte da fala, porque queriam saber de imediato, ali mesmo, quanto das verbas públicas seria reservado para eles. A presidente prometeu anunciá-lo em breve.

As promessas e benesses que Dilma ofereceu aos especuladores foram tantas que o cientista político André Singer, porta-voz da Presidência durante o governo Lula, afirmou, em sua coluna de final de semana, na “Folha de S. Paulo”, que o governo, para agradá-los, teria aberto mão de seu projeto de desenvolvimento. “O governo busca, sem sucesso, mostrar ao mercado financeiro que desistiu da ‘aventura’ desenvolvimentista e deseja restabelecer o ‘status quo ante”’, disse ele, ao comparar a ida da presidente a Davos a uma “penitência” aos endinheirados (veja o artigo reproduzido nesta página). Tanto para Singer quanto para Eduardo Campos não escapou a gritante contradição entre a situação, pintada como uma “maravilha” pela presidente em seu discurso, e suas “promessas” generosas em demasia aos banqueiros, com o intuito de atrair investimentos estrangeiros, como se eles fossem “salvação da lavoura”. Ninguém ali é bobo ou está desinformado do que se passa no Brasil. Diante da situação, os agiotas, é claro, não se fizeram de rogados e estão a aumentar ainda mais as suas exigências em relação ao Brasil. Querem garantia de juros altos e de recursos para pagá-los. Ameaçam “rebaixar” o Brasil com suas arapucas de classificação de risco. E a presidente parece que resolveu atendê-los plenamente. Disse isso explicitamente em seu discurso de Davos.

Não faltaram promessas de mais arrocho na já combalida economia do país para que sobrem recursos para os bancos. Dilma garantiu que vai manter os juros nas nuvens, e crescentes, e que vai “enquadrar” os Estados e municípios nos compromissos das metas de superávit primário – leia-se, mantê-los ou piorar a penúria em que se encontram atualmente. Ou seja, o estrangulamento das finanças das unidades da federação, que já perderam muitos recursos, não só com os contingenciamentos de verbas federais, mas também com as desonerações dadas às multinacionais, que reduziram em R$ 23,5 bilhões os repasses da União para os municípios, só em 2013.

Segundo disse, é “estratégico (…) aprimorar o controle das contas dos entes federados, estaduais e municipais; fortalecer o preceito da responsabilidade fiscal, para tornar mais efetiva e transparente a geração de superávit primário de todos os entes federados, da União, dos estados e municípios”.

Soou também como música para os ouvidos dos especuladores de Davos, a promessa de Dilma de que vai restringir a atuação dos bancos públicos (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal) para que o setor bancário privado tenha maior espaço para seus negócios no Brasil. No período do governo Lula e até mesmo no início de mandato de Dilma, os bancos públicos foram fundamentais para garantir a expansão do crédito e para manter os juros em níveis aceitáveis. Se dependesse dos bancos privados, sobretudo dos externos, o país teria afundado em 2008.

Mas, agora, Dilma anuncia que os bancos privados vão “recuperar seu espaço” para certamente poderem esfolar tranquilamente a população e os empresários brasileiros com seus juros de agiotagem. Até a “inundação de dólares” feita pelos EUA, que ela chamou de “guerra cambial” e “tsunami” em outros tempos, virou agora “estímulos financeiros”, em seu discurso.

IMAGEM

Mas, é claro, os donos do dinheiro, percebendo que quem está “a mil maravilhas” não faz tantas promessas, aproveitaram para exigir mais. Diante do tom de imploração de Dilma, eles disseram que querem “compromissos mais explícitos” com seus interesses. Houve até quem escrevesse um artigo para o “Financial Times” intitulado “Dilma precisa mais de Davos do que Davos precisa de Dilma”.

Como a contradição entre o discurso e a realidade do país foi desproporcional, como bem observaram Eduardo Campos e André Singer, os banqueiros exigiram que a presidente não só faça profissão de fé no neoliberalismo, mas que ela “cuspa na cruz”. Em outras palavras, que se curve ainda mais diante das exigências dos fariseus. E o discurso de Davos, pelo grau de submissão demonstrado, revela claramente que ela está realmente disposta a fazê-lo. Revela que ela está disposta a vender o Brasil em troca de um punhado de dólares e de uma reeleição que, se vier a acontecer, estará estreitamente ligada à imagem da subserviência e da traição nacional.

SÉRGIO CRUZ

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