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Tia Ciata e a formação da cultura nacional (1)

Hora do Povo

Como os negros se tornaram os cimentadores da cultura nacional, vale dizer, o elemento agregador da identidade nacional?

Estávamos abordando essa questão – e, para isso, tentando conhecer as origens do samba antes que Noel Rosa desse a ele a sua forma moderna, isto é, urbana e operária, após a Revolução de 30.

Noel, como se sabe, não era negro. O que fez com que ele, um ex-aluno do São Bento e da Faculdade Nacional de Medicina, fosse atraído para uma expressão artística que era predominantemente (quase totalmente) dos negros, como é evidente por seus antecessores, Donga, Pixinguinha, Sinhô – que se dizia “cafuzo” e não “mulato”, exatamente porque era mulato – e tantos outros?

Exemplifiquemos melhor a questão.

Lá pelo meio da década de 60 do século passado (caramba…), o velho professor Homero Dornelas – que, pelas costas, os alunos da Seção Norte do Colégio Pedro II chamavam por um apelido bobo, “Homero Panelas”, pois achávamos exótico o seu sobrenome – era respeitado por muitas razões. Uma delas era a sua autoria de “Na Pavuna”, samba ainda cantado em 1965, três décadas e meia depois que vencera o carnaval, em 1930 (Na Pavuna, tam, tam, tam/ Na Pavuna, tam, tam, tam/ Tem um samba/ Que só dá gente reiuna// O malandro que só canta com harmonia,/ Quando está metido em samba de arrelia,/ Faz batuque assim/ No seu tamborim/ Com o seu time, enfezando o batedor./ E grita a negrada:/ Vem pra batucada/ Que de samba, na Pavuna, tem doutor/ Na Pavuna…// Na Pavuna, tem escola para o samba/ Quem não passa pela escola, não é bamba./ Na Pavuna, tem/ Canjerê também/ Tem macumba, tem mandinga e candomblé./ Gente da Pavuna/ Só nasce turuna/ É por isso que lá não nasce “mulhé”).

O último verso era um pouco contraditório com o pseudônimo usado por Dornelas para assinar essa autoria: “Candoca da Anunciação”. Mas nenhum aluno jamais teve coragem de perguntar o motivo daquela escolha – não porque o professor tivesse algo de amedrontador, pelo contrário, mas a sua idade e a sua vida impunham respeito.

Outro de seus feitos era a revelação – ou, pelo menos, a ajuda – de um compositor chamado Noel Rosa, que procurou Dornelas em 1929 para que transcrevesse numa partitura um samba intitulado “Com que Roupa?”. Músico de formação erudita (foi violoncelista da Orquestra Sinfônica Brasileira) e compositor popular desde 1926, naquela época ele era frequentemente procurado por colegas que tocavam e compunham, mas não sabiam escrever com notas musicais o que tocavam ou compunham (o próprio Sinhô aprendeu, incrivelmente, a tocar piano “de ouvido”). Dornelas, segundo se diz, deu a “forma final” no samba de Noel – algo de que ele nunca falou em sala de aula. Sempre se referia a Noel com uma admiração sublime. Jamais mencionou a sua contribuição no primeiro sucesso do gênio de Vila Isabel.

Ele era um dos dois professores de Canto Orfeônico do Pedro II – Seção Norte, na rua Barão do Bom Retiro nº 726, no Engenho Novo (será que o endereço ainda é o mesmo?), na segunda metade dos anos 60. O outro, Heronides Neves, conhecido por ter organizado – e regido – uma impressionante combinação da banda do Corpo de Bombeiros com o coral do Pedro II, era um elegante discípulo de Villa-Lobos, o que era uma diferença em relação a Homero Dornelas, aluno de Lorenzo Fernández, que foi mais um amigo que um discípulo do grande Villa.

[Uma curiosidade: estranhamente, o professor que, no início da década de 60, reorganizara o Departamento de Canto Orfeônico do Pedro II, não era um músico, mas um matemático, Cecil Thiré – avô do ator de mesmo nome, filho de Tônia Carrero e do artista plástico Carlos Thiré.]

A outra admiração explícita de Dornelas era o seu parceiro em “Na Pavuna” – Almirante.

Lá por 1965, Henrique Foreis, de quem ninguém sabia o nome, pois era dito “Almirante, a maior patente do rádio brasileiro”, era mais presente como autor de uma terrorífica coluna diária (“Incrível! Fantástico! Extraordinário!”) no jornal “O Dia”. No entanto, ele foi o homem que, essencialmente, fixou a história da música popular do Brasil no período anterior à bossa nova.

Almirante foi uma autoridade única nessa matéria – pois sempre falava de algo vivenciado. Fora ele, com Braguinha (João de Barro) e Noel Rosa, que organizara, em 1929, o Bando de Tangarás, que teve como primeiro grande sucesso, exatamente, “Na Pavuna”. Nessa gravação, o grupo teve o pernambucano Luperce Miranda, egresso dos “Turunas da Mauriceia”, no bandolim. Mas o motivo dessa gravação ter-se tornado histórica foi outro: pela primeira vez a percussão entrava em registro fonográfico.

Esses compositores – Candoca da Anunciação, Almirante, Noel, Braguinha – procuravam (ainda que inconscientemente) um meio de expressão que fosse nacional. Encontraram no samba esse meio de expressão.

Estávamos tentando colocar essas ideias no papel (aliás, na tela) quando, quase por acaso, lemos o belo texto do jornalista Fábio Gomes sobre tia Ciata. Relata o autor que seu artigo foi “escrito em novembro de 2007, após minha primeira viagem à Bahia, quando explanei sobre O Samba Indígena no Teatro Dona Canô, por ocasião da abertura da Casa de Samba de Santo Amaro, em setembro daquele ano. O texto atendia o pedido de uma baiana, funcionária do Ministério da Cultura, que, após ouvir José Miguel Wisnik falar sobre tia Ciata, perguntou-me onde poderia saber mais acerca de sua famosa conterrânea. Quando comecei a ler a respeito, vi que não havia porque manter minha intenção inicial de apenas compilar os dados já largamente conhecidos (muitos dos quais já citados, aliás, na explanação de Wisnik), já que a figura de tia Ciata que emergiu de minha pesquisa (feita, em grande parte, nas mesmas fontes que tantos outros pesquisaram) apresentava um personagem riquíssimo“.

Esse texto nos economiza muita pesquisa sobre as características que fizeram com que os negros se tornassem o elemento humano decisivo da nossa nacionalidade.

O leitor poderá, aliás, encontrar vários materiais interessantes – e importantes – nos blogs de Fábio Gomes, “Jornalismo Cultural” (http://vamosfalar-jornalismocultural.blogspot.com.br/) e “Noel Rosa Sempre” (http://noelrosa100.blogspot.com.br/).

C.L

FÁBIO GOMES

A imagem que temos hoje de Tia Ciata surgiu em maio de 1949, quando o radialista e pesquisadorAlmirante realizou na Escola Nacional de Música (Rio de Janeiro) a conferência O Samba Não Nasceu no Morro, com o apoio musical de Aracy de Almeida eO Pessoal da Velha Guarda. Almirante buscou demonstrar que era uma lenda afirmar que o samba teria nascido no morro; ele seria, ao contrário, o resultado de uma série de manifestações de origem negra que se concentraria, particularmente, na Cidade Nova. Citou como exemplo que o “Pelo Telefone”, que considerava o primeiro samba gravado, nasceu em 1916 na casa de tia Ciata, na rua Visconde de Itaúna, 117, frequentada por músicos que nunca haviam morado no morro. As festas na casa de tia Ciata serviam ainda para a divulgação de sambas novos, pois o rádio ainda não existia, as festas da Penha aconteciam apenas nos domingos de outubro e era difícil o acesso dos compositores mais humildes aos empresários do teatro de revista para colocar suas músicas.

Almirante fixou portanto nesta conferência não apenas o modo como Hilária Batista de Almeida seria conhecida pela posteridade – seu apelido variava até então entre Ciata, Asseata, Assiata, Siata, Seata e Asseiata – mas também o seu caráter de uma anfitriã do samba, aspecto ao qual foi sendo dada gradativamente maior importância à medida em que “Pelo Telefone” deixou de ser considerado apenas o primeiro samba gravado, para ser apontado como o primeiro samba a ser composto. Passa-se então a se referir a casa de tia Ciata, ou mais especificamente o seu quintal, como “o berço do samba”, e nisso se resume quase tudo o que dela tem sido dito (inclusive poucas vezes se tem buscado apontar as causas que tornariam sua casa tão especial).

Muitos outros sambas foram gravados e muitos mais ainda compostos antes do “Pelo Telefone”, que, deste modo, não tem como ser considerado um “ponto inicial” do samba, embora seja inegável seu papel histórico de ter sido o primeiro samba a fazer grande sucesso no Carnaval carioca, sendo cantado em toda a cidade, e não apenas no círculo que o gerou, como era comum até então. Felizmente o valor de tia Ciata não se resume a seu hipotético papel de ser a dona do quintal “berço do samba”.

Embora da pessoa, mesmo, de tia Ciata poucas informações circulem, a simples menção do seu nome desperta um sentimento positivo em quem ouve. Certamente foi por isso que os cariocasLeandro Braga (pianista), Carlinhos Sete Cordas(violonista) e Armando Marçal, Marcelinho Moreira, Ovídio Brito e Zero (percussionistas) deram o nome de “Tia Ciata” a seu grupo de samba instrumental.

Não foram nada positivas, porém, as menções que o jornalista João do Rio fez à tia Ciata na Gazeta de Notícias em 1904. Ele publicou nesse jornal carioca uma série de textos sobre as diversas práticas religiosas existentes então na capital federal. Estes textos são considerados hoje o marco inicial da reportagem no Brasil – pela primeira vez um jornalista saía da redação e ia às ruas em busca do assunto sobre o qual escreveria. Só o fato de os textos terem sido publicados no mesmo ano em livro (intitulado As Religiões do Rio) e de este ter merecido uma segunda edição (fato raro na época) já em 1906 atesta seu sucesso.

A série abre falando dos cultos afro-brasileiros (qualificados por João do Rio como “feitiços”). Tia Ciata aparece como Assiata em três desses textos: “As Iauô” (12 de março), “O Feitiço” (14 de março) e “A Casa das Almas” (16 de março). O autor a considera uma “feiticeira de embromação”, que fingia ser mãe-de-santo e trabalharia com “três ogans falsos” (“João Ratão, um moleque chamadoMacário e certo cabra pernóstico, o Germano.”). Seria ainda uma “exploradora”, uma “negra baixa, fula e presunçosa”. O fato de Assiata, em sua visão, não ser uma legítima mãe-de-santo teria sido a causa de uma grande confusão em sua casa, na Rua da Alfândega, 304, quando “meteu na festa de Iemanjá algumas iauô feitas por ela”, o que causou “um escândalo dos diabos”: “os pais-de-santo protestaram, a negra danou, e teve que pagar a multa marcada pelo santo.” Acusou-a ainda de ter posto “doida” uma “senhora distinta” da Tijuca, “dando-lhe misturadas para certa moléstia do útero.” João do Rio não informa o que a teria levado a fazer isso. Talvez não considerasse necessário, pois em As Religiões do Rio ele afirma que todos os praticantes de cultos afro-brasileiros eram “feiticeiros” que “formigam no Rio, espalhados por toda a cidade, do cais à Estrada de Santa Cruz” e que estavam espalhando o mal fora do limite do “estreito meio dos negros”. Não era, portanto, algo pessoal de João do Rio contra tia Ciata. Por essa mistura da opinião do autor com a exposição do fato ao leitor, a série As Religiões do Rio dificilmente seria considerada reportagem no quadro jornalístico atual, estando mais para o ensaio.

Bem, ao menos o endereço de Ciata fornecido por João do Rio está livre de contestação. Com efeito, ela ainda morava no Centro nesta época. Aliás, residia na Rua da Alfândega desde que chegara da Bahia, provavelmente em 1870 (ou pouco depois). Nascida em Santo Amaro da Purificação no dia de São Jorge, 23 de abril, em 1854, teria então 16 anos. Mesmo tão jovem, já participara da fundação da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira, outra cidade do Recôncavo baiano. A Irmandade existe até hoje e é do seu acervo a foto de tia Ciata que ilustra este texto (pela qual agradecemos a Valmir da Boa Morte).

Ao chegar à Corte, Ciata foi morar na casa do baiano Miguel, casado com outra conterrânea,Amélia Quindunde. A residência do casal na Rua da Alfândega era uma espécie de “consulado baiano” no Rio. Por essa época, começavam a chegar à capital grande número de ex-escravos baianos, que tinham saído da terra natal levados para trabalhar nas lavouras de café do Vale do Paraíba, na província do Rio de Janeiro; essa migração foi aumentando conforme se aproximava o fim do regime escravocrata e continuou após a assinatura da Lei Áurea (1888). Perto do final do século 19, baianos e nordestinos que haviam sido soldados nas expedições enviadas contra Canudos também se fixaram no Rio.

A maioria escolhia a região central da cidade, indo morar nas casas de cômodos, também chamadas cortiços ou cabeças-de-porco. Estes palacetes construídos ao tempo da Colônia ou do Império estavam sendo abandonados pela antiga nobreza, incomodada pelo aumento da população pobre na área abrangida hoje pelo Centro e área portuária (Saúde, Gamboa, Santo Cristo, Morro da Providência ou da Favela), incluindo inicialmente os morros do Castelo e Santo Antônio (demolidos mais tarde) e avançando depois em direção à Zona Norte (morros da Mangueira, Salgueiro e Santos Rodrigues, também chamado de São Carlos e hoje mais conhecido como Estácio).

No começo do século 20, quase um quarto da população carioca vivia em cortiços, mesmo com as sucessivas campanhas da Prefeitura contra esse tipo de habitação, ora apontada como a causa de epidemias como as de varíola e febre amarela, ora como fator de insegurança do restante da população. Foi pensando em saneamento que o prefeito Barata Ribeiro ordenou a derrubada de cabeças-de-porco em 1893. Já a famosa política do “bota-abaixo” de seu sucessor, Pereira Passos, em 1904, visava tornar o Rio de Janeiro uma cidade capaz de rivalizar com as maiores capitais europeias, tendo Paris como modelo assumido. A partir daí, como o Centro não mais poderia ter casas de cômodos, seus antigos ocupantes se transferiram para a Zona Norte ou para a Cidade Nova – caso de tia Ciata, que se estabeleceu então no famoso endereço da Rua Visconde de Itaúna, 117, em frente à Praça Onze, onde morou até morrer, em 1924. O casarão era uma legítima casa de cômodos, com seus 6 quartos, 2 salas, um longo corredor e quintal com árvores (um abacateiro, ao menos). Parte da família seguiu, porém, morando na Rua da Alfândega: foi lá que em 1909 nasceu Bucy Moreira, mesmo com a determinação de Ciata para que seu neto viesse ao mundo no casarão. Poucos meses depois, o futuro grande sambista mudou-se com a família para a Rua Minervina, perto da Praça Onze.

Além da Prefeitura, a imprensa também não tinha em bom conceito a Cidade Nova: em 1905 a revistaRenascença publicou uma matéria intitulada “Onde moram os pobres”, mencionando a Visconde de Itaúna como uma das ruas onde as casas de cômodos escondiam “a negra miséria de uma população enorme”. É difícil avaliar hoje o real teor racista da expressão “negra miséria” nesse contexto. De todo modo, é bom acrescentar que eram vizinhos de tia Ciata também imigrantes italianos, caixeiros, tipógrafos e funcionários públicos. (A Visconde de Itaúna não existe mais, desapareceu quando das obras para a abertura da avenida Presidente Vargas).

Ah, e claro, a afirmação de João do Rio sobre tia Ciata ser falsa mãe-de-santo não tem o menor fundamento. Ela chegara ao Rio já iniciada: tivera a cabeça feita ainda na Bahia, no Ilê Iyá Nassô do Engenho Velho. No Rio, tornou-se filha-de-santo deJoão Alabá, de Omulu, cuja casa era considerada uma filial carioca de uma dissidência do Ilê Iyá Nassô em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Antes de ter sua própria casa de candomblé, tia Ciata chegou a ser Mãe Pequena (ou seja, a substituta imediata do Babalorixá) da casa de João Alabá, que ficava na rua Barão de São Félix, no caminho da zona portuária para a Cidade Nova. Também eram filhas-de-santo de Alabá outras baianas amigas de tia Ciata: tiaAmélia do Aragão (Amélia Silvana de Araújo, mãe de Donga), tia Preciliana do Santo Amaro(Preciliana Maria Constança, mãe de João da Bahiana), tia Mônica, tia Bebiana, tia Gracinda(esposa do sacerdote islâmico Assumano Mina do Brasil), e tia Sadata.

Continua na próxima edição de sexta feira

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