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O DESATINO DE QUEER COMPARAR A VIDA DE UM MÉDICO CUBANO COM UM MÉDICO BRASILEIRO

A começar por sermos duas sociedades bem diferentes, um país rico o outro pobre, um país socialista o outro capitalista dependente. A vida dos médicos no Brasil, com raras exceções, são de uma breve luta laboral no início de carreira e um enriquecimento rápido logo nos anos seguintes. A vida de um médico cubano é bem diferente, a  começar por não ter uma ideologia que o impulsione compulsivamente ao enriquecimento. Segundo, seu salário é bem diferente dos salários ou rendas dos médicos brasileiros. Eles, no entanto, tem saúde, educação e acesso à cultura gratuitos em seu país. Coisa que custam muito caro aqui no Brasil. Só o que um médico gasta com a formação dos seus filhos no Brasil é muitas vezes o que ganha um médico cubano. O médico cubano é formado para ser um missionário, não para enriquecer com a medicina. Só isso já os coloca em situação muito diferente dos seus colegas brasileiros. Para o povo que precisa de médicos isso tem um importante diferencial. Os médicos cubanos que vieram para o Brasil tem um salário, disponível enquanto aqui vivem, muito menor do que os salários dos médicos brasileiros. No entanto a despesa do governo brasileiro é bem maior para cada médico. Além daquele pequeno salário o governo lhes garante a moradia. Parte do pagamento que o governo brasileiro faz para a Fundação que organiza a vinda dos médicos de seu país é retido pelo governo cubano. Outra parte ainda é reservada para o médico para quando ele voltar a Cuba. A vida em Cuba é bem mais pobre do que a vida no Brasil mas lá a desigualdade é bem menor. De modo que querer comparar uma formação egoísta, individualista e gananciosa a que os médicos brasileiros estão sujeitos  com a formação humanista, solidária e austera a que os médicos cubanos usufruem, é uma tolice de pessoas que tem na mente implantado um sólido espírito capitalista. Leia a matéria abaixo e reflita. Isso que eu escrevi não impede de que tenhamos criticas severas ao descaso com que o governo tem tratado o SUS. Precisamos, sim, de “estrutura” como dizem os nossos médicos, mas precisamos muito mais recursos para o sistema de saúde e muito mais investimento na formação de médicos com um espírito menos mercantilista e mais baseado nos ensinamentos de Hipócrates. (Cláudio Fajardo)

A “praga cubana” que deu certo

qua, 26/02/2014 – 19:17 – Atualizado em 26/02/2014 – 21:11

Enviado por Celso Orrico

Do Tijolaço

O médico cubano e a mãe do professor. A “praga” que virou aula

Wilson Gomes, professor da Universidade Federal da Bahia, postou hoje um texto no seu facebook que está se espalhando pela internet.

Wilson não desenvolve teorias, apenas narra impressões sobre o que ocorre em sua cidade natal, Camacã, na zona cacaueira do sul da Bahia, onde ainda vive sua mãe.

Nas discussões sobre o Programa Mais Médicos, rogaram-lhe a “praga” de que alguém da sua família fosse atendido por um médico cubano. “Gosta de médicos cubanos, tomara que um deles atenda a sua mãe.

Pois não é que a mãe de Wilson, lá em Camacã, foi atendida por um médico cubano que serve no Posto de Saúde da Família da pequena cidade?

Dr. Ariel Calderon Rodriguez, fui pesquisar e achar a foto de sua chegada a Camacã.
A história? Deixemos que Wilson a conte, sem mais conversa.

Os fatos bastam.

Quando, no ano passado, eu defendia a chegada de médicos cubanos, uma das ameaças mais comuns das pessoas que “debatiam em mim” (pq no Facebook é assim) consistiu em desejar que alguém da minha família fosse atendido por um deles. Faz parte do padrão de ataque conservador quando você não adere ao “pega! esfola!” ou não se junta à milícia unidimensional: “está com pena de bandido, leva pra casa”, “é contra antecipação da maioridade penal, quero ver quando estuprarem alguém seu”, “gosta de médico cubanos, tomara que um deles atenda a sua mãe”.

Pois não é que aconteceu o que gentilmente me auguraram acerca dos cubanos? Camacã, 20 mil almas, tem orgulhosamente o seu “médico cubano”, um rapaz bonito e atencioso, segundo a minha mãe. Tem também e sempre teve outros médicos, brasileiros, alguns bonitos, alguns que eram atenciosos quando lá chegaram. Desde que me entendo por gente, todo médico que por lá desembarca tem por meta, além daquelas associadas ao seu mister, enriquecer. “Enricar”, no dialeto local. E isso acontece em 10 anos, em média. Quase todos viraram fazendeiros de cacau e, basta ver como foram as últimas cinco eleições por lá, são políticos e empresários.

Nada contra enricar, embora eu seja incompetente nesta área, tudo contra o que acompanha esse processo do lado da medicina: desatenção, arrogância, desprezo pela vida e o sofrimento alheios. As “histórias de médico”, em que se narram os tidos e havidos quando alguém precisou de serviços hospitalares ou atendimento de urgência, são histórias de horror, desrespeito e humilhação dos mais vulneráveis.

Pois a minha mãe adorou justamente por isso o cubano do Posto de Saúde. A cadeira para ela estava do lado da dele, houve escuta, falou-se de mãe distante e de saudades da família, tudo isso enquanto se examinava a paciente. É uma questão de eixo: acostumamo-nos todos a um eixo vertical, em que o paciente está embaixo, bem embaixo, e o doutor lá em cima (“paciente tem que ter paciência” divertem-se os profissionais de saúde); mas há mais humanidade no eixo horizontal, em que dois seres humanos, um que padece e o outro que cuida, colocam-se no mesmo nível (paciente é quem sofre, diz a etimologia).

Nem sempre a interação médico-paciente foi desse jeito no Brasil, mas a experiência com os cubanos ao menos deu a velhinhas como minha mãe a percepção de como as coisas poderiam ser diferentes. No mínimo, os cubanos do ‪#‎MaisMédicos  trouxeram mais civilidade, humanismo, compaixão ao atendimento clínico. No mínimo. Trouxeram mais competência? Não sei, mas com certeza a minha cidade não era um paraíso de competência médica que poderia declinar com a chegada de quem quer que fosse. Mas, como me disse Dona Maria, pelo menos (a) o médico está lá e (b) te vê. E isso certamente não é pouco.

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