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“Ainda tem muita coisa que não se sabe”, afirma viúva de Marighella

O ESSENCIAL

Postado em 1 de April de 2014 às 4:54 am

Militante desde a década de 1940, Clara Charf viveu de perto a repressão da Ditadura Militar (1964-1985). Poucos dias antes do golpe — que completa 50 anos no dia 1° de abril — policiais invadiram seu apartamento à caça de seu marido, o líder comunista Carlos Marighella.

Naquela noite, encontraram apenas Clara. Considerado inimigo número 1 do regime, seu companheiro seria assassinado pelos militares em 1969. Ela foi uma das primeiras mulheres que perderam direitos políticos na ditadura e passou a viver como clandestina. Perseguida, Clara foi para o exílio em Cuba, onde ficou até a anistia.

Em entrevista ao Brasil de Fato, a viúva de Marighella fala de episódios dramáticos daquela época que até hoje a emocionam. Conta também sobre como se tornou comunista, caminho que, como ela mesma diz, não abandonou até hoje. “Ainda temos muita coisa por fazer. Tem muita gente que ainda não tem emprego, casa”, afirma.

Meio século após o golpe, Clara ainda espera esclarecimentos sobre esse período sombrio da história brasileira, bem como punição de torturadores e assassinos. “Espero muito da Comissão da Verdade, mas sei que não é um trabalho fácil. Ainda tem muita coisa que não se sabe.”

Trechos da entrevista:

O golpe militar de 1964 faz 50 anos. Como ficou sabendo do golpe na época?

Quando veio o golpe, a gente já tinha alguns elementos que nos preveniram. Na época, éramos do Partido Comunista e já tinham invadido o nosso apartamento. Eu morava no Rio, perto do Palácio do Catete.

Invadiram antes do golpe?

É, alguns dias antes. O golpe estava se gestando. O Marighella tinha ido para a Bahia, eu fiquei em casa e estava esperando que ele voltasse. Numa noite tocou a campainha. Achei estranho, porque ele nunca tocava. Olhei pelo olho mágico e eram os policiais. Pensei: “Agora tô ferrada!”. Não tinha por onde sair, então fiquei ali quieta. Os caras começaram a gritar, mas eu não queria abrir, então eles começaram a arrebentar a porta. Dando golpes e mais golpes, a porta rachou e eles entraram.

E o que eles fizeram?

Acho que eles tomaram um susto. Pensavam que era um apartamento enorme e que o Marighella estava lá. Nem o Marighella estava, nem o apartamento era grande. Só estava eu. Eles começaram a gritar e eu comecei a gritar também, porque queria que a vizinhança ouvisse. Continuei gritando até que eles foram embora.

Eu não tinha telefone e precisava avisar alguém que eles tinham invadido nosso apartamento. Estava desesperada, com medo do Marighella aparecer. Bati na porta da vizinha e pedi que ela ficasse de olho na porta enquanto eu saía para telefonar. Quando ela viu que o apartamento tinha sido invadido, respondeu: “Chama a polícia!”. Já imaginou?

Pouco tempo depois o Marighella foi preso…

Foi. O Marighella tinha combinado com a mulher do zelador do nosso prédio de encontrá-la numa praça onde tinha um cinema, lá no Rio. Ela ia levar algumas coisas para ele, roupas e correspondências. Só que a repressão continuava querendo pegar o Marighella de qualquer jeito, e começou a seguir essa mulher. O que eu sei é que eles entraram no cinema e a polícia deu voz de prisão lá dentro. O Marighella começou a gritar e a polícia atirou. Ele estava preso, baleado e na mão da repressão. Desculpe [diz emocionada], foi uma cena horrível. Ele não podia nem respirar.

Como era seu cotidiano com Marighella?

Era muito difícil. Tínhamos que viver com o nome trocado. E não tínhamos muito recurso, tinha que ser tudo contado. Tinha que ter muito cuidado para não deixar pistas, não sermos reconhecidos. Mas o dia-a-dia com o Marighella era muito bom. Na vida em comum, dividíamos tudo. As coisas pesadas ele fazia, e as coisas mais leves eu fazia. Uma coisa pesada era passar o escovão no chão, por exemplo. O escovão era um negócio pesado pra chuchu, então ele fazia isso. E ele não sabia passar roupa, então quem fazia isso era eu.

E ele resolveu que, enquanto eu passava roupa, ele ia ler alguma coisa em voz alta para mim. “Em vez de você passar sozinha sem ouvir nada, você vai ouvindo as coisas que eu vou ler”, dizia. Ele sempre foi muito solidário. Podia ter muitos defeitos, como todo mundo tem. Mas era incapaz de ver você fazendo uma coisa e ficar de braço cruzado. Isso foi uma grande lição.

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