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Funcionários do IBGE repudiam cancelamento da PNAD Contínua

 

Manifestações e assembleias ocorreram em vários estados: “Fora Wasmália!”, bradaram

Getúlio Vargas, a Revolução de 30 – e, especialmente, o grande brasileiro, estatístico e humanista que foi Teixeira de Freitas – fundaram o IBGE para que nós, sobretudo o governo, conhecêssemos a realidade do país para transformá-la, para melhorá-la. Daí, inclusive, o lema de Teixeira de Freitas no IBGE: “Faça o Brasil a estatística que deve ter e a estatística fará o Brasil como deve ser”. Foi esse espírito, esse amor à verdade e compromisso com o Brasil, que fez do IBGE uma das instituições nacionais com maior credibilidade (talvez até a de maior credibilidade entre todas), ao longo de oito décadas.

O governo atual foi o primeiro, desde que o IBGE existe – desde a década de 30 do século passado –  a substituir o lema de Teixeira de Freitas por: “esconda as estatísticas desfavoráveis e o Brasil será pior, mas ninguém saberá até as eleições”.

Porém, plantar vento não costuma redundar em uma colheita tranquila. As manifestações de funcionários do IBGE tomaram, na quarta-feira, a sede da instituição, na avenida Chile, centro  do Rio. Houve manifestações e assembleias, além do Rio, em Manaus, Maceió, Recife, São Paulo, Vitória, Belo Horizonte, Curitiba, Mato Grosso do Sul, Florianópolis e Porto Alegre. O Sindicato Nacional (ASSIBGE-SN) dos funcionários do IBGE convocou novas assembleias gerais para a próxima quinta-feira, dia 24.

Na quinta-feira pela manhã, a diretoria-executiva do sindicato protocolou pedido de audiência com a ministra Míriam Belchior, para discutir a crise aberta com o cancelamento, este ano, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), após pressão da senadora Gleisi Hoffman, líder de facto do governo, e da própria ministra, sobre a presidente do IBGE, Wasmália Bivar – e após esta ceder às pressões, adiando os resultados da pesquisa até depois das eleições e formando um grupo para refazer a metodologia – que há 10 anos vem sendo elaborada.

A atitude da senhora Wasmália motivou o pedido de exoneração da diretora de pesquisas, Márcia Quintslr, da coordenadora-geral da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), Denise Britz do Nascimento Silva, a colocação de seus cargos à disposição por 18 coordenadores e gerentes de pesquisa e um manifesto à população assinado por 45 profissionais altamente qualificados da instituição. Todos  denunciam a ingerência no cancelamento da divulgação dos resultados da PNAD Contínua.

Realmente, o que entendem esses senadores – que teriam pedido o cancelamento – de estatística ou de pesquisas do IBGE? Naturalmente, eles têm o direito de fazer campanha eleitoral com as pesquisas que quiserem ou até defender que a PNAD Contínua é incorreta. Mas não têm – ou o governo não tem – direito a esconder números porque há uma eleição e esses números (basicamente os números sobre emprego, mas também os números sobre a distribuição e concentração de renda) mostram que é mentira o Shangri-lá que Dilma recita como se fosse o Brasil.

Alguém já sugeriu que ela nomeie o marketeiro João Santana para presidente do IBGE, mas, do modo que as coisas estão caminhando, o marketeiro iria acabar ocupando todos os postos do governo, exceto, talvez, a Presidência da República.

Em algumas assembleias, na quarta-feira, funcionários bradaram “fora Wasmália!”. Segundo eles, além aceitar a ingerência do Planalto na questão da PNAD Contínua, a atual presidente do IBGE tem se portado de maneira excessivamente submissa diante de sucessivos cortes no orçamento do IBGE – que já provocaram o adiamento para 2015 da Contagem Populacional e da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), além de mostrar-se indiferente à situação precária do seu corpo de funcionários. Hoje, 45% dos funcionários do IBGE são temporários, recebendo R$ 850,00 por mês. São cinco mil funcionários que não têm direito nem à ajuda de custo em caso de trabalho externo (“indenização de campo”), ao contrário dos efetivos (6 mil funcionários). No entanto, respondendo ao sindicato, disse a presidente do IBGE que esse problema não existe, pois “está na Casa quem quer, já que o mercado de trabalho está aquecido”.

O cancelamento da PNAD Contínua, como dissemos, significa esconder os resultados da nova pesquisa do IBGE sobre emprego, mas também é a ocultação de outro de cujus – outro cadáver –, mas deixando-o no meio da sala: a concentração de renda, e, por consequência, a desigualdade, que, na última PNAD convencional, aumentou em quase todas as regiões do país.

Ao invés de remover o cadáver, o governo Dilma quer mantê-lo no meio da sala, mas dizendo que ele não existe. Daí as pressões da senadora Glesi Hoffman sobre a presidente do IBGE – e com um pretexto ridículo: que a PNAD Contínua iria interferir na distribuição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados.

Na terça-feira, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo divulgou estudo sobre a nova distribuição do FPE, instituída pela Lei Complementar nº 143, aprovada no ano passado. Como a mudança é progressiva, mostra o estudo que somente daqui a 97 anos a questão da “renda domiciliar per capita” – o pretexto da senadora Gleisi Hoffman – se tornará relevante na redistribuição dos recursos dos Estados.

Obviamente, ninguém acredita que a senadora tenha tão longas e altruísticas preocupações com o destino da Humanidade.

Quando, em 1973, um ministro da Fazenda da ditadura falsificou o índice de inflação para arrochar mais os salários, fez isso por sua conta e risco – não pressionando o IBGE. Tanto assim que o índice verdadeiro foi conhecido porque o governo informara o número correto ao Banco Mundial e ao Bird – este último, ao emitir um relatório, avisando aos “investidores” que o número verdadeiro era 22,5%, e não 12,6%, acabou revelando, inadvertidamente, a falsificação. O episódio projetou nacionalmente o líder sindical metalúrgico que liderou a luta pela reposição do que havia sido roubado dos trabalhadores – um certo Luís Inácio da Silva, mais conhecido pelo apelido pernambucano, Lula (v. um relato sucinto em Vito Giannotti, “História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil”, Mauad Ed., Rio, 2007, p. 220-221).

Agora, nem esse pudor de não envolver o IBGE foi mantido.

E, mesmo depois do escândalo estourar, a presidente não repreendeu ou desvinculou-se das atividades de sua preposta (a palavra é feia, leitor – mas é menos que “presidenta”).

CARLOS LOPES

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