Deixe um comentário

Dilma diz que não retira sua candidatura para Lula voltar

 

“Não havendo apoio da base, a gente vai tocar em frente”, 
disse Dilma, após o PR defender Lula como candidato

que faz com que a presidente Dilma acredite que as pessoas não vão perceber um marketing grosseiramente mentiroso? Tome-se, por exemplo, no discurso na véspera do 1º de Maio, o seu anúncio de uma medida provisória corrigindo a tabela do imposto de renda.

A inflação de 2013, medida pelo IPCA, foi 5,91%. A inflação em 12 meses de março foi 6,15%. A presidente corrigiu a tabela do imposto de renda em apenas 4,5%, o que é um aumento do confisco salarial instituído pelos tucanos, mas anunciou: “Isso vai significar mais dinheiro no bolso do trabalhador“.

DEFASAGEM

A defasagem acumulada desde que os tucanos congelaram essa tabela até dezembro de 2013 já estava em 61,42%, segundo o Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Sindifisco). Dilma, portanto, aumentou o confisco, com uma correção abaixo da inflação. Mas acha que os trabalhadores e a classe média não vão notar a trapaça…

No dia anterior, disse ela que “gostaria muito que, quando eu for candidata, eu tivesse o apoio da

minha base, da minha própria base. Agora, não havendo esse apoio, a gente vai tocar em frente“.

Pelo visto, em sua opinião, não é responsabilidade da candidata aglutinar sua base, se quiser ganhar a eleição. Nem é responsabilidade sua que a base de apoio que Lula lhe passou – e que era, então, a maior da história da República – esteja se esfrangalhando.

Porém, existe, aqui, algo pior que desprezo pelos seus apoiadores.

O principal partido da base da presidente, sem o qual essa base não existe, é o PT. Não se sabe muito bem como ela pretende ser candidata sem o PT – a coerência não é o seu forte, portanto, é inútil procurar uma lógica, porque ela não existe. O evidente é que ela considera que a sua candidatura se sobrepõe à vontade do próprio partido – ou que o partido não pode ter outra vontade senão carregar o caixão de ferro da sua candidatura. Mas, e se a vontade do partido for – como, aliás, é o caso – outra?

Essa – digamos – cadeia alimentar da submissão, em que, ao seu ver, o PT e os outros partidos devem se submeter a ela, tanto quanto ela se submete aos bancos externos e outros monopólios multinacionais, é escandalosamente nítida em suas declarações de que Lula não vai ser o candidato a presidente porque lhe deve “lealdade” (“Sei da lealdade dele a mim, e ele da minha lealdade a ele”).

Dilma deve ser a única pessoa – no Brasil e no mundo – que acredita haver um sinal de igualdade entre ela e Lula. Ao que deve corresponder a crença (também única no Universo) de que se elegeu em virtude de suas excepcionais qualidades eleitorais, ou políticas, ou “gestoras”, ou lá de que tipo sejam. Parece alucinação, mas, infelizmente, é o que se pode depreender.

É óbvio que Lula está muito acima de Dilma como líder – e como candidato. Mesmo na situação atual, em que ela ocupa a Presidência, a candidatura de Lula, para o PT, é muito mais natural do que a de Dilma, que só foi candidata porque a legislação – aliás, injusta – não permitia um terceiro mandato a Lula, nem ele queria. Da mesma forma, ela somente foi eleita porque Lula, e, portanto, as forças nacionais que ele uniu em torno de si, fizeram das tripas coração para elegê-la – e quase que ela bota tudo a perder no primeiro turno, tendo que alterar a linha de campanha, comprometendo-se, a começar pelo petróleo do pré-sal, com tudo o que, em seguida, viria a jogar para o alto.

Tudo isso é óbvio, menos para ela.

Lula não estaria sendo desleal, se quisesse corresponder à tendência dominante no PT e na base governista, e ser candidato à Presidência da República.

Pelo contrário, quem está sendo desleal é ela, ao se colocar como obstáculo – e, pior ainda, a razão porque está sendo um obstáculo: porque modificou todos os aspectos positivos da política do presidente Lula, do fim das privatizações, que voltaram, ao crescimento, que derrubou abaixo do patamar dos tucanos, passando pela solerte tentativa de exumar a Alca por um desvio europeu (v. artigo do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães na página 5).

No discurso à véspera do 1º de Maio, além do confisco de salário via tabela do IR, apresentado como “mais dinheiro no bolso do trabalhador”, Dilma, depois de passar os últimos meses trombeteando que investira R$ 143 bilhões em “mobilidade urbana” desde as manifestações do primeiro semestre de 2013, disse que “está investindo” R$ 143 bilhões de reais. A mudança no verbo tem um motivo: nos últimos dias ficou claro que ninguém sabe e ninguém viu essa verba. Logo, agora a sua aplicação é indefinida (“está investindo”? Sem prazo?) e remetida para algum lugar fora do tempo e do espaço.

Quanto às cornetadas de que “nos últimos 11 anos mais cresceu o emprego e o salário mais se valorizou” e houve “a maior distribuição de renda da história do Brasil“, existe apenas o pequeno problema de que Dilma só é presidente desde janeiro de 2011 – logo, ela está, de forma desonesta, tentando dissolver os desastres de sua operosa administração nos sucessos do governo do presidente Lula.

No governo Dilma, o emprego industrial está caindo há 28 meses (cf. PIMES, março 2014). Já o emprego em geral, apesar do governo incluir os subempregados como se fossem empregados, por que pressionou o IBGE para suspender a PNAD Contínua, causando uma crise na instituição que ainda não se encerrou? Não é apenas porque o desemprego de 7,1% dessa pesquisa desmoraliza o fantasioso “pleno emprego”. Pela PNAD Contínua é fácil perceber que 30% dos ocupados não são empregados, e sim a soma de empregadores (4,1% dos ocupados), trabalhadores por conta própria (23%) e “trabalhadores familiares auxiliares” (3%), que nem precisam ser remunerados. Isso quer dizer que 28 milhões dos oficialmente ocupados não estão empregados – além dos 62,4 milhões que são considerados “fora da força de trabalho” (cf. IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios CONTÍNUA, Indicadores para população de 14 anos ou mais de idade, 4º Trimestre de 2013).

IMAGINEM

Chega ao cinismo a menção à “valorização” do salário mínimo quando, logo no primeiro ano de seu governo, Dilma impediu um aumento além dos R$ 3,00 (três reais), depois arredondados para R$ 5,00 (!), pretextando a letra da lei para atropelar completamente o seu espírito – negociado entre as Centrais Sindicais e o presidente Lula (v. HP 18/02/2011).

Por fim, a distribuição de renda: ela estancou desde 2011. Segundo revelou a PNAD 2012, do IBGE, a concentração de renda aumentou em todas as regiões do país, exceto Norte e Centro-Oeste.

Para terminar, leitores, uma pérola sobre os aumentos de tarifa de energia que vêm arrancando o couro dos brasileiros este ano, com mais aumentos já anunciados para 2015, com o objetivo de, em meio à anarquia do sistema elétrico, garantir os ganhos dos setores privatizados – à custa da população e das estatais.

Segundo Dilma, a situação não está lá essas coisas, mas “imagine se nós não tivéssemos baixado as tarifas de energia elétrica em 2013“. Agora, sim, estamos conformados.

CARLOS LOPES

HORA DO POVO

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: