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FIFA exige R$ 28 mil de festa popular na Copa do Mundo

 

Por Implacável
 
Uma carta aos “donos da bola”
 
 
Senhor Blatter,
 
Não nos conhecemos — o que, aliás, não faz a nenhum de nós dois a menor falta. Sou a dona do nome que batiza a rua da querida Tijuca, onde uma multidão crescente se reúne para exaltar o ludopédio. Trata-se de turma animada, um pouco barulhenta para os meus padrões, mas de uma alegria inegociável. São bem daquele tipo que faz a fama do Rio de Janeiro.
 
Felicito-me por observar de longe, posto que nunca fui de me misturar a multidões. Cruzei meu tempo aí entre convescotes restritos, sempre em torno de quem me era próximo e familiar. Tolerava, por conveniente, as celebrações pagãs de nossos escravos, uma gente alegre nos seus rituais que lembravam o lugar de onde vieram. (Contam-me que aquelas danças, batuques e rezas deram no carnaval, mas isso é outro assunto.) Não conheci a era de grandes ajuntamentos, tampouco me lamento por isso.
 
Mas veja o que são os paradoxos. À distância, faço gosto daquela festa que acontece à sombra do meu nome, a cada quatro anos, a pretexto de celebrar a competição da qual o senhor se arvora proprietário. Alegra-me a vaidade de ter o nome associado a tal manifestação de alegria, a ponto de até relevar o desfrute da corruptela “Alzirão”.
 
Pois agora, sou surpreendida por essa sua intenção despropositada de cobrar pela festa que o senhor não realiza, não patrocina, não abriga. Ora, francamente, senhor Blatter? Onde o senhor pensa que está?
 
Aprendi a temer o direito de propriedade e afinal entendi os conceitos que vieram depois de mim, como o da valorização de marcas e eventos. É o tal jogo jogado. Mas não posso admitir o castigo àquela turma que começou a se reunir ainda em 1978, em torno de uma televisão modesta, na esquina com o confrade Conde de Bonfim. Por causa deles, a brincadeira cresceu, ganhou fama, atraiu mais gente, virou Associação Recreativa e Cultural e, nove Copas depois, em 2010, juntou 40 mil pessoas por dia na rua — na minha rua. Jamais sua.
 
Agora, desavergonhadamente, o senhor acena com uma cobrança de R$ 28 mil. Quer mais esse caraminguá para sua entidade, que, permita-me lembrá-lo, distribuiu US$ 37 milhões em bônus para seus executivos ano passado. Não lhe concedo intimidade e, por isso, deveria me conter, mas não consigo: ganância, além de pecado, tem limite! Como se diz hoje em dia por aí, fala sério!
 
Vivi na época certa, quando esse jogo peculiar que enfeitiça os brasileiros ainda não havia chegado por estes trópicos. Regalei-me no sossego das minhas terras, hoje retalhadas em quadras urbanas, coalhadas de prédios, que nem de longe lembram o vale emoldurado pela intocada Mata Atlântica dos meus dias.
 
Mas digressiono. O ponto, distinto senhor, é que entendo minha gente e, daqui, observo o século XXI, seus problemas e pendores. Sei que o Brasil aceitou as condições impostas por sua entidade para realizar o evento. Só que enxergo também que começa a lhe faltar mercado — daí, os senhores, habituados à asséptica Suíça, terem alargado fronteiras para se aventurar por áfricas, rússias, brasis. Esta via, portanto, precisa ter mão dupla.
 
Assim, alguma soberania e dignidade precisam nos sobrar. Veja o drama de outros conterrâneos, proprietários de cadeiras perpétuas no vizinho Maracanã. O direito deles, concedido quando da construção do estádio, está sendo desrespeitado pela sua turma. Não pode. Lastimo, ainda, a cumplicidade do Estado com a ilegalidade em relação a estes frequentadores do nosso templo esportivo.
 
Sim, trata-se de desrespeito não a uma, mas a duas leis estaduais, a 57/47 e 335/49. Elas determinam o uso daquele assento, comprado nos primórdios do estádio, por seus donos para sempre, em quaisquer eventos realizados ali. Agora, acenam com uma indenização a ser paga com dinheiro do contribuinte. Sei daqui que muita gente não recebeu a reparação ainda daquele torneio de 2013, a Copa das Confederações. E com os ingressos do Mundial todos vendidos, o desrespeito está cristalizado. Uma pena.
 
O senhor manda na festa, passeia para lá e para cá escoltado por batedores na sua fantasia de chefe de Estado, posa de poderoso na tribuna, embolsa os lucros — e os prejuízos ficam com o governo e com o povo. Desde o meu tempo (na verdade, antes), essa terra é tolerante e generosa com quem não merece. Mas haja obsessão por dinheiro, não?
 
Alongo-me e peço desculpas, porque muito havia a ser dito. Deixe a festa dos meus em paz. O senhor e sua entidade são milionários muito além do que fizeram por merecer.
 
Sem mais,
 
Alzira Brandão.
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