Deixe um comentário

Governo “amadurece” baixar os salários, admite Mantega

 

Em entrevista, ministro de Dilma disse que a ideia está “sendo discutida há algum tempo” e “aperfeiçoada”

governo encontrou mais uma panaceia para o pântano econômico a que conduziu o país: reduzir salários, ideia quase genial – e muito original – que, disse o ministro Mantega, está “sendo discutida há algum tempo. Está sendo aperfeiçoada, mas ainda não há uma decisão. Está sendo amadurecida“.

Provavelmente, está sendo apodrecida. Já voltaremos às geniais ideias do governo Dilma para reduzir os salários. Vejamos antes, leitor, em que situação aparecem essas poluções mentais.

Os juros médios atingiram 98,05% ao ano para os consumidores e 48,50% para as empresas – a décima elevação consecutiva. Mas isso são as médias das médias: os juros médios do cartão de crédito atingiram 228,17% a.a.; os do cheque especial, 154,06%; os dos empréstimos pessoais nas financeiras, 131,36%; os do crediário, 70,76% a.a. As taxas de juros para financiamento do capital de giro das empresas e para desconto de duplicatas são as maiores em 19 meses, segundo o relatório de março da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (ANEFAC).

A conclusão desse relatório é a seguinte: “Estas elevações podem ser atribuídas a expectativa de novas elevações da Taxa Básica de Juros (Selic), bem como à piora do cenário econômico nacional (…). Estes fatos têm levado as instituições financeiras a elevarem suas taxas de juros acima das elevações da Selic“.

Em síntese: o governo está puxando todos os juros da economia para cima, através do aumento da taxa básica pelo Banco Central (BC), isto é, através da elevação do piso dos juros.

PRENSA

O resultado dessa política – de resto, inflacionária de cabo a rabo – é uma prensa gigantesca sobre as empresas nacionais, sobretudo as empresas industriais, e sobre os trabalhadores. Rigorosamente, o governo está aumentando o desvio de recursos da produção e dirigindo-os para a especulação estéril. Assim, com os juros cada vez mais altos, as empresas produtivas estão à beira da morte por falta de água.

A proposta do governo, segundo o sr. Mantega em entrevista ao “O Globo”, é fazer aquilo que o presidente Lula denunciou na época da ditadura: jogar nas costas dos trabalhadores o peso da irresponsabilidade do governo. Fazê-los pagar com miséria e fome pelo que não são culpados.

É sintomática a concepção que esse governo tem do que é “emprego”. Não bastam os milhões de trabalhadores reduzidos a quebra-galhos, que o governo considera “empregados”. Agora, quer transformar em quebra-galhos até aqueles que estão empregados na General Motors e semelhantes.

Para isso, a redução dos salários seria através de uma “redução da jornada trabalhada“. Segundo disse o ministro, “uma empresa que momentaneamente passa por uma dificuldade de vendas, tem que diminuir a produção. Então, ela coloca 20% de sua força de trabalho em casa. O trabalhador continua recebendo parte do salário, e o custo é dividido pelo seguro-desemprego, pela empresa e pelo trabalhador” (grifo nosso).

Essa moderna concepção de que o trabalhador deve pagar o custo de seu próprio salário (ou parte dele) parece ser uma inovação do governo Dilma à teoria econômica – e à sem-vergonhice universal. O salário somente é custo para o empregador, para a empresa, para o patrão. Assim, pela proposta de Mantega, o trabalhador pagaria pela empresa o custo de seu próprio salário. Logo, pagaria o seu próprio salário (ou parte dele), mas sem ser patrão de si mesmo (segundo Mantega, “a ideia é que a empresa não demita o trabalhador“).

Resumindo: o salário do trabalhador seria reduzido, pois é isso o que significa “receber parte do salário” ou “dividir o custo do salário com a empresa”.

Parece coisa do barão de Munchausen, que, segundo contou, saiu de um atoleiro puxando a si mesmo pelos próprios cabelos. Mas, do barão esse governo somente tem a compulsão à mentira. O resto não é tão engraçado, nem tão inofensivo.

O governo acha que não é um problema seu, se as empresas “passam por dificuldades de vendas, têm que diminuir a produção”. Aliás, não há ninguém no Planalto – ou em suas adjacências econômicas – preocupado com as empresas em geral. É óbvio que eles, há muito, não conseguem enxergar outro tipo de empresa, senão as multinacionais, bancos, monopólios financeiros estrangeiros – o que tem provocado reações significativas dos empresários nacionais, como a presidente Dilma deve ter notado.

Fundamentalmente, é para os monopólios externos que o governo pretende “flexibilizar” a legislação trabalhista, isto é, reduzir os direitos dos trabalhadores. Sempre foi uma cantilena das multinacionais que os direitos trabalhistas atrapalham seus “investimentos”. Como elas não fazem nenhum – o governo lhes concedeu o caixa do BNDES – o que querem dizer é que os direitos trabalhistas impedem que elas saqueiem completamente o país.

Reduzir salários é achatar o mercado interno. Porém, as multinacionais dependem de uma faixa do mercado de renda mais alta – elas são, inevitavelmente, “concentradoras de renda”. São as empresas nacionais que dependem do mercado interno determinado pelo nível salarial geral. Por isso, elas tendem a ser “distribuidoras de renda”.

No entanto, a política do governo é, precisamente, a de impedir que o país cresça. Sobre isso, bastaria acrescentar, por agora, apenas mais um fato, além dos juros altíssimos e da consequente taxa de câmbio deformada para subsidiar as importações (que são principalmente, embora não exclusivamente, as importações das multinacionais, o chamado “comércio intrafirma”, entre matriz e filial).

INVESTIMENTO

Neste ano, os recursos para investimento das empresas estatais foram cortados em 14%, comparados ao ano passado,sem contar a inflação. Caíram de R$ 123.229.765.832, em 2013, para R$ 105.873.070.487, em 2014. Em dinheiro, um corte de R$ 17.356.695.345, um corte equivalente ao dobro da verba de investimento de todo o Grupo Eletrobrás, com suas 20 empresas, inclusive Furnas, Chesf e Eletronuclear(cf. portaria nº 12, de 28/03/2014, relatório de Murilo Francisco Barella, diretor do DEST/MPOG).

A consequência é o soçobramento da economia. Assim, a indústria paulista, responsável por 40% das vendas industriais do país, caiu -10,1% em relação ao mesmo mês (março) do ano passado (cf. FIESP/CIESP, “Levantamento de Conjuntura”, 30/04/2014).

A mediana das previsões para o crescimento do PIB está em míseros 1,63% e a mediana da expectativa de aumento da produção industrial está em minúsculos 1,21%. Como trata-se de mediana – e não de média – quer isto dizer que 50% das previsões e das expectativas são inferiores a 1,63% e 1,21%.

Agora, além disso, uma redução de salários pelo método Dilma/Mantega. Significaria liquidar com o último esteio que ainda impede o país de cair num abismo: o consumo das famílias.

Deve ser a mesma concepção (?) que fez a presidente Dilma anunciar, entre fanfarras, na televisão, um aumento de R$ 7 reais para o Bolsa-família. Mas ela só falou no percentual: “Assinei um decreto que atualiza em 10% os valores do Bolsa Família recebidos por 36 milhões de brasileiros”. Realmente, 10% de R$ 70 são R$ 7. O suficiente para um maço de Hollywood e ainda sobra R$ 1. Não é maravilhoso?

CARLOS LOPES

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: