1 Comentário

Para Lula, política econômica põe país numa “rota delicada”

HORA DO POVO

Ex-presidente cobrou do secretário do Tesouro estímulo ao crédito. “Apenas seguir a rotina técnica não dá mais certo” 

O ex-presidente Lula, cobrou, em evento promovido pelo jornal espanhol El País, na última sexta-feira, em Porto Alegre, que o governo cesse o arrocho no crédito para que o país possa sair da pasmaceira em que se encontra. Lula se dirigiu diretamente ao secretário do Tesouro, Arno Augustin, presente no encontro, e disse que sem crédito “não se vai a lugar nenhum”. A cobrança foi feita no mesmo dia em que uma pesquisa do Datafolha mostrou um profundo desânimo e pessimismo da população com a atual política econômica do governo.

“Arno, um dia você vai ter que me explicar por que, se não tem inflação de demanda, por que a gente está barrando crédito. Porque com o crédito todo mundo vai à luta, o comércio vai à fábrica, a fábrica vai produzir, melhora a vida de todo mundo. Sem crédito ninguém vai a lugar nenhum”, disse Lula, deixando o secretário do Tesouro bastante desconcertado. O ex-presidente Lula insistiu que o governo aumente a oferta de crédito para o mercado interno como forma de retomar o crescimento da economia. As taxas de juros brasileiras foram elevadas sistematicamente nos últimos meses recolocando o país na condição de possuir a maior taxa de juros do mundo. Essa medida foi uma das principais causas da queda de consumo das famílias e do PIB.

Lula aproveitou a presença do secretário do Tesouro entre os participantes do encontro e cobrou mais ousadia da equipe econômica para reverter a desaceleração da economia. A previsão do chamado “mercado” para o crescimento do PIB neste ano vem caindo e, mais uma vez, esta semana, foi reavaliada para baixo. Está na casa dos 1,44% (veja matéria nesta edição). A média de crescimento do PIB no período de Dilma já está abaixo da de FHC. Além da constatação de que a coisa não vai bem e a cobrança feita, Lula advertiu também que a combinação entre queda da demanda interna e redução do fluxo de comércio internacional pode colocar o país numa “rota delicada”.

“Nós podemos chegar a 80% do PIB de crédito, a 90%, não tem nenhuma importância. Tem país com 120%. Nós não temos problema de dinheiro para investimento. Mas por que não tem investimento? Não tem porque o país não quer vender nada. Se está diminuindo a demanda, por que eu vou investir? Se tem dinheiro à vontade para investir mas não tem gente para comprar, eu não vou fazer. Não temos que ter medo. Temos que ficar um pouco mais afoitos agora. Apenas seguir a rotina técnica não dá mais certo. Tem que colocar um pouco do charme do compromisso social para a gente melhorar a situação”, afirmou Lula.

Na opinião de Lula, o país está numa situação muito complicada. “Estamos passando pelo momento mais delicado da crise”, disse, colocando a culpa pela situação na incapacidade dos governos dos Estados Unidos e Europa resolverem seus problemas econômicos. O ex-presidente recomendou ao secretário do Tesouro a criação de um fundo de incentivo ao comércio de US$ 2 bilhões com a África como forma de vender mais ao continente africano.

Acreditando que isso seja possível na atual situação econômica mundial, Lula sugeriu que o governo faça um acordo com as montadoras para que direcionem uma parte da produção nacional de automóveis para o mercado africano. “Temos que comprar uma briga, porque todas as empresas automobilísticas estão vindo produzir carro para o mercado interno”, observou. “Acho que temos que dizer para as matrizes o seguinte: tchê, quer investir aqui, ótimo. Agora, uma parte das exportações para o mercado africano deve sair da produção brasileira. Quem pode fazer esse jogo, Arno, é o Brasil”, recomendou.

Em tom de brincadeira, mas claramente criticando o arrocho promovido pelo governo Dilma, Lula disse que é preciso superar a mentalidade de “tesoureiro” de Augustin. “Se depender só do pensamento do Arno, você não faz nada. Não é por maldade dele não, é que um tesoureiro de um sindicato é assim. A nossa tesoureira dentro de casa, que é a nossa mulher, também é assim. Elas não querem gastar, só querem guardar. Mas tem que gastar um pouco também”, disse o ex-presidente.

SÉRGIO CRUZ

Anúncios

One comment on “Para Lula, política econômica põe país numa “rota delicada”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: