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Gilberto Carvalho diz que PT erra no diagnóstico sobre insatisfação com o governo

Um pouco de lucidez não faz mal nenhum. Gilberto Carvalho, ministro da presidente Dilma, diz com todas as letras que há um sentimento geral de frustração com o governo. É claro que ele diz acreditar que ganharão as eleições. Propõe uma espécie de autocrítica para o partido, porque ele se burocratizou e se distancio das massas. Tudo, ou quase tudo que ele diz, pode ser verdade. Mas, é apenas meia verdade. Pois o ministro não tocou nos compromissos do governo com os monopólios e os banqueiros, fato que realmente os distancia dos interesses tanto nacionais quanto populares.  Ainda assim, se fosse um não petista a fazer essas reflexões seria chamado de inimigo. (Claudio Fajardo)

Da Folha

Ministro vê sentimento generalizado e diz que partido alimenta ‘ilusão’ de que ‘povo pensa que está tudo bem’
NATUZA NERY
O ministro Gilberto Carvalho afirma que o PT está errado no seu diagnóstico sobre a insatisfação da população com o governo da presidente Dilma Rousseff e tem alimentado a “ilusão” de que “o povo pensa que está tudo bem”.
“Acho um erro de diagnóstico”, diz o ministro, chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, em entrevista à Folha. “E quando você não tem um bom diagnóstico, não tem um bom remédio.”

Carvalho, que condenou as vaias e xingamentos dirigidos a Dilma na abertura da Copa do Mundo, contrariou o discurso adotado pelo PT para reagir ao dizer, na semana passada, que os ataques não partiram só da “elite branca”.
O ministro diz que seu objetivo foi alertar para a generalização da insatisfação com o governo, fenômeno que, na sua opinião, tem origem num pensamento conservador ampliado com ajuda da mídia.
Carvalho acredita que a presidente vai se reeleger em outubro, porque aposta que o PT conseguirá “furar esse grande bloqueio” na campanha e mostrar aos eleitores as realizações dos governos petistas nos últimos 12 anos.
Folha – A afirmação de que o xingamento contra Dilma não partiu só da “elite branca” foi uma espécie de sincericídio?
Gilberto Carvalho – Não. Foi muito consciente. Tenho feito esforço enorme para ter muita sintonia com as ruas e para não romper com aquilo que considero justo e honesto, mesmo que me custe. Prefiro ser criticado de sincericídio do que me omitir.
Levou puxão de orelha?
Nenhum.
Mas reclamaram anonimamente pelos jornais…
Só pelas costas [risos]. A única coisa que me incomoda é que a palavra “sincericídio” me subestima, me desqualifica, como se fosse um igrejeiro ingênuo. Repudio [o xingamento]. Uma chefe de Estado, uma mulher, uma pessoa que dá a vida pelo país, por sua história passada e presente, não pode ser alvo disso.
Já houve xingamentos antes.
No show do Rappa [em Ribeirão Preto, em maio]. Quando ouvi o xingamento no estádio, lembrei do show. Confirma um clima estimulado por opiniões na linha de criminalizar tudo que é da política com ódio e adjetivação. A pregação reiterada, acentuada no tempo do mensalão, difere de outros erros.
Como assim?
Não nego atos de corrupção que tivemos. Infelizmente, eles aconteceram, têm de ser reprovados. Esses atos nos doem primeiro a nós mesmos.
O problema é o tratamento que se dá a erros dos outros, como o mensalão tucano, que se chama de mensalão mineiro, nem do PSDB dizem que foi. A compra de votos para reeleger [o ex-presidente] Fernando Henrique [Cardoso], que não passou por nenhuma investigação porque havia naquele tempo um esquema para impedir.
Precisamos ter clareza disso e combater, porque, do contrário, começa a ganhar corpo uma opinião cada vez mais ampla de que nós estamos prejudicando o país, de que inventamos a corrupção.
O que baseou sua constatação sobre a “elite branca”?
Quando chego em Curitiba e encontro um garçom falando que o PT é o mais corrupto da história. Quando vejo em Fortaleza meninos cobrando a questão da corrupção. Quando vi no metrô meninos entrando e puxando o coro do mesmo palavrão usado no estádio, não posso achar que é um fenômeno apenas na cabeça daquilo que está se chamando de elite branca.
Há, sim, um pensamento conservador que se expressa fortemente por meio dos veículos de comunicação e que opera um cerco contra nós. E esse cerco tem dado resultado, na medida em que ganha amplitude.
E qual o efeito sobre a eleição?
Tenho muita convicção de que vamos ganhar. Conseguiremos furar esse grande bloqueio porque vamos poder mostrar para o país, num debate aberto, sem mediações, o que de fato foi e está sendo realizado. Essa minha fala está muito voltada para a necessidade de fazermos uma grande mobilização que não parta da ilusão de que o povo pensa que está tudo bem.
Mas estão negando isso no PT.
Acho um erro de diagnóstico. E quando você não tem um bom diagnóstico, não tem um bom remédio.
Para petistas, o xingamento surgiu da área VIP do estádio.
Difícil identificar. Nem quero entrar nessa polêmica. O problema não é de onde surgiu, é a generalização. Olha, nós estamos felizes com a Copa, festejando até agora [bate três vezes na madeira, com punho direito fechado], porque nenhuma previsão catastrófica desses setores conservadores se confirmou. O país passa até agora muito bem pelo teste.
A frase da “elite branca” renega a ideia de Copa para todos?
Nós não trabalhamos como trabalhamos para popularizar a Copa para isso. Os estádios estão povoados de brasileiros e estrangeiros que vêm também de setores populares. Fizemos coisas importantes como meia entrada, ingressos para áreas do Bolsa Família, para idosos, portadores de deficiência. Brigamos com a Fifa.
Então não vou entrar nessa contradição de dizer que só a elite estava no Itaquerão. Se começou com a elite, e pode ter começado, preocupa ter ganhado adesão mais ampla.
Mas foi Lula quem puxou esse discurso…
Não vou polemizar com Lula nem com meus companheiros. Quero é trazer de volta essa gente, não quero generalizar e colocar os torcedores do Itaquerão do outro lado. Mesmo aqueles que xingaram a Dilma, de maneira inadequada, eu os quero conosco. Quero fazer pontes, não jogá-los do outro lado, na mão de quem quer tê-los.
O sr. disse que a imagem de partido corrupto “pegou” em setores mais populares.
Tenho certeza de que o PT tem na sua imensa maioria uma gente muito séria, honesta. Agora, precisamos de fato ter um rigor interno ético muito grande. Lutar desesperadamente pela reforma política para mudar o indutor da corrupção, que é o financiamento empresarial de campanha. Sinto isso na carne.
Na carne?
Porque vejo companheiros que acabam se enrolando muitas vezes nesses processos de corrupção, em grande parte induzidos por uma prática tradicional no país e que antes, insisto, não aparecia, porque não se investigava.
Se houvesse o mesmo padrão de investigação que nós tivemos nesses últimos 12 anos, muita gente do governo anterior estaria na cadeia.
Fala de quais companheiros?
Não quero personalizar.
O sr. é responsável pela interlocução com os movimentos sociais, mas hoje o PT paga militância em campanhas.
Acho que que, na justa medida em que nós nos tornamos uma grande instituição, fomos nos burocratizando. O PT trouxe inovações fundamentais para a ampliação da participação das pessoas na política e dar protagonismo a setores populares marginalizados. Mas o vírus da velha política também nos contaminou, em parte.
Acho que não temos que sonhar romanticamente em reconstruir o PT de 1982, mas precisamos reconquistar o sentido coletivo de fazer política. Reanimar a militância. Na medida em que a gente foi se verticalizando, fomos nos tornando mais pragmáticos, perdendo a nossa mística.
Será uma eleição mais difícil?
Não tenho dúvida. Mas vamos ganhar. Há três candidaturas com certa viabilidade, com gente que saiu do nosso projeto [Eduardo Campos].
Dói para Lula ter Eduardo Campos como adversário?
Sempre percebo um lamento. Não só pelo fato de ser amigo, também por ser do nosso projeto. Mas acho que não é o fim da linha. Espero que a gente se reencontre.
O sr. falou que o PT se burocratizou. Como mudar?
Precisamos produzir um grande debate interno. Acho que Lula tem toda condição de capitanear isso. Temos que rejuvenescer o partido.
Com Lula candidato em 2018?
Não acho que é contradição. Ele tem uma incrível capacidade de criar o novo.
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