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Como Lula aproximou-se dos Estados Unidos

 

ter, 01/07/2014 – 06:00 – Atualizado em 01/07/2014 – 07:08

Luis Nassif

Ontem de manhã Otto Reich estava indignado.

Na condição de Subsecretário de Estado do governo George W. Bush. Para o Hemisfério Ocidental – responsável por uma área que ia do Canadá à Argentina – Reich foi o principal operador para a aproximação dos EUA com Lula, antes mesmo das eleições.

Sua surpresa foi com resenhas publicadas neste final sobre o livro“18 Dias”, de Matias Spektor, narrando os supostos esforços do ainda presidente Fernando Henrique Cardoso para convencer Bush Jr. e os financistas de Wall Street que Lula não era um incendiário.

Reich foi entrevistado por Spektor, assim como seus interlocutores brasileiros.

É até possível que o então presidente do Banco Central Armínio Fraga tivesse feito algum trabalho junto ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e a Wall Street. Mas FHC teve influência próxima de zero na aproximação de Lula com o governo Bush.

Primeiro, pelo inusitado de um presidente que sai do acordo avalizar seu adversário político. Depois, por não ter praticamente nenhuma influência sobre a corte de George W. Bush. Como disse o interlocutor de Reich, “Fernando Henrique não tinha muito capital junto a Bush para gastar com Lula”.

As ligações de FHC sempre foram com Bill Clinton e o Partido Democrata. E as duas maiores implicâncias de Bush eram justamente Clinton e intelectuais tidos como de esquerda, como FHC.

O INÍCIO DO CONTATO

O primeiro encontro de aproximação com o governo Lula ocorreu em São Paulo, em junho de 2002 – portanto, antes mesmo de se conhecer o resultado das eleições – na casa de um empresário amigo de Reich. Este chegou no mesmo dia da reunião, que teve início às 13 horas e se prolongou até às 19.

Do lado norte-americano estavam presentes a embaixadora Dona Hrinak e o cônsul em São Paulo  Patrick Duddy. O encontro, aliás, serviu para alavancar a carreira de Duddy que, depois disso, tornou-se Subsecretário de Estado para o Cone Sul e, mais tarde, embaixador na Venezuela – o último embaixador, aliás, expulso por Hugo Chávez.

Do lado brasileiro participou o futuro Ministro-Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Ele garantiu que Lula respeitaria integralmente os compromissos internacionais e financeiros do país, mostrou que não havia caminhos possíveis para a esquerdização do país e se tornou o principal interlocutor dos EUA.

Reich voltou para os Estados Unidos com um novo perfil de Lula. Informou a Bush Jr que não se tratava de líder populista ou comunista, até por não ter formação intelectual para tal, mas do self made man típico, que está na base do sonho americano.

Imediatamente a imagem projetada de Lula conquistou Bush, a ponto de, pouco depois, convidá-lo para passar alguns dias com ele, nos EUA, dispensando-lhe um tratamento de amigo que nem Clinton conseguiu dispensar a FHC.

AS OUTRAS REUNIÕES

Em novembro ocorreu um segunda reunião, juntando Otto, Bill, Lula, Aluizio Mercadante e Antonio Palocci. Por volta de 10 de dezembro de 2002 Lula foi a Washington antes mesmo da posse, algo totalmente fora do padrão.

Quando começaram as primeiras reuniões entre a cúpula do PT e Otto Reich, o embaixador brasileiro em Washinghton, Rubens Barbosa, vendia ao governo norte-americano a versão de que Lula não tinha chances de vitória e o governo deveria apostar tudo na vitória de José Serra – de quem ele, Rubens Barbosa, seria o chanceler.

Obviamente, nem Serra, nem Barbosa, nem FHC sabiam das tratativas secretas de Otto Reich com a cúpula do PT. O que torna mais inverossímil a versão do papel de FHC nessa aproximação.

O terceiro encontro de Reich foi em março de 2003, com Lula e Dirceu na Granja do Torto. Desse encontro nasceu a viagem de Dirceu aos Estados Unidos, ocasião em que se reuniu com a Secretária de Estado Condoleeza Rice e com o mundo político e financeiro. Inclusive com um jantar histórico, em Washington, com 24 pessoas, os presidentes dos principais bancos do país, oferecido por  Donna Graham, herdeira do Washington Post.

Foi o melhor período nas relações entre Estados Unidos e o Brasil.

Tempos depois, já fora do governo, o próprio Otto Reich viria ao Brasil como representante da família Bush interessado em negócios de biodiesel de cana.

Mesmo depois de deixar a Casa Civil, Dirceu continuou sendo o interlocutor preferido do Departamento de Estado.

Em sua visita ao Brasil, Condoleeza fez questão de marcar um almoço com ele. Dirceu estava na Venezuela, foi avisado às sete da manhã mas chegou a tempo, graças ao jatinho de Hugo Chávez. Donna Graham também se tornou visitante do escritório que Dilma montou, depois de deixar o governo.

Com a saída de Dirceu de cena, perdeu-se o elo mais consistente das relações com os Estados Unidos, episódio lamentado no Departamento de Estado

O autor do livro, Matias Spektor é conceituado inclusive junto a Reich. Antes de voltar para o Brasil, trabalhou no Council of Foreign Relations. Dai a estranheza em relação às conclusões do livro.

Pode ser que as resenhas tenham exagerado o papel de FHC. Pode ser que o próprio FHC tenha se excedido ao discorrer sobre sua suposta influência no governo de George W. Bush.

De qualquer modo, Reich e seus amigos estão aguardando a leitura integral do livro – que ainda não foi lançado – para formar juízo sobre a obra.

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